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quarta-feira, 18 de abril de 2012

O caso do padre Christian von Wernich. A Igreja utiliza "réguas" diferentes

Fonte: Unisinos

nov.2007

O jornalista Washington Uranga em artigo para o Página/12, 5-11-2007, afirma que até o momento a Igreja argentina e o Vaticano não se pronunciaram sobre o afastamento e do padre Christian von Wernich condenado pelo apoio e pratica de tortura durante a ditadura argentina. Uranga destaca que a Igreja age com critérios diferentes quando se trata de punir religiosos. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

No dia 09 de outubro, o sacerdorte Christian von Wernich foi condenado por delitos lesa humanidade. No mesmo dia, a Conferência Episcopal Argentina em um tíbio comunicado, fiel a sua linha de argumentação, insistiu que o padre atuou “sob responsabilidade pessoal”. Consequentemente, para os bispos não há responsabilidades institucionais.

No dia seguinte e depois de receber várias pressões por parte de outros membros da hierarquia católica, o bispo de 9 de Julho, Martín de Elizalde, pediu “perdão” em nome da Igreja pelos delitos de Von Wernich, mas ‘empurrou a bola’ para frente sobre as sanções ao padre violador dos direitos humanos.

“Oportunamente se dirá como resolver, conforme as disposições do Direito Canônico (a lei eclesiástica), acerca da situação de Christian von Wernich”, escreveu então o bispo. Essa oportunidade entretanto não chegou e o padre preso continua ostentando a sua condição de ministro religioso.

(os padres que enfiam o pé na jaca nunca são excomungados, nem torturadores, nem os pedófilos - só a mãe da menina grávida por abuso foi excomungada por ter concordado com o aborto, enfim ... é essa a lógica da moral cristã)

Vale a pena perguntar de que outras provas precisa a Igreja e, em particular, o bispo de 9 de Julho para tomar medidas contra quem como ficou comprovado, contradisse não apenas os ensinamentos fundamentais do Evangelho, mas que para além disso atentou contra a vida de que a Igreja defende com tanta vêemencia em outros casos.

Ao menos, que o bispo Martín de Elizalde considere que, como pensa, Von Wernich, a Justiça atuou politicamente e por vingança e que tudo o que fez o ex-capelão de Ramón Camps não foi senão uma contribuição a mais para “salvar” almas.

O certo é que até hoje, Von Wernich continua sendo sacerdote da Igreja Católica com todas as atribuições e reconhecimentos que isso implica. Poderia se dizer que “oportunamente” o bispo Martín de Elizalde está deixando passar o tempo sem tomar medidas porque considera que a grave e categórica conclusão da Justiça ao condenar o padre não é razão suficiente para gerar sanções eclesiásticas.

Diferente é a atitude da mesma Igreja frente a outras situações. No dia 12 de outubro, um padre italiano foi suspenso por admitir publicamente sua homossexualidade. O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, disse então que “as autoridades vaticanas tem que intervir com essa decisão e severidade diante de um comportamento não compatível com o serviço sacerdotal e a missão da Santa Sé”. Medida exemplificadora pode-se dizer.

No dia 26 de outubro, o bispo de Pádua (Itália), Antonio Mattiazo suspendeu a divinis (medida que impede de exercer o ministério sacerdotal), o padre Sante Squotti (41 anos) por ter admitido publicamente estar apaixonado por uma mulher. “Não posso ter um filho, nem casar-me – disse o padre -, mas posso me apaixonar, porque o Direito Canonico não estipula nenhuma sanção para isso”. O argumento não serviu e o sacerdote foi castigado.

Poderá se argumentar que as situações são distintas e que cada bispo tem autonomia para tomar decisões em suas dioceses. Mas a Igreja Católica é a mesma aqui e na Itália e está claro que não se mede com a mesma régua a quem “peca” por amor e quem está condenado por genocídio. Não é preciso lembrar aqui a sorte do que aconteceu com os sacerdotes católicaos argentinos que decidiram falar publicamente do seu amor e questionar o celibato.

É o caso de perguntar se demoraria às sanções eclesiásticas contra um ministro que se atrevesse a contradizer publicamente a doutrina católica sobre o celibato, homossexualidade, indissolubilidade do matrimonio ou discriminalização do aborto. Seguramente, a “oportunidade” nesse caso teria uma celeridade e um critério bastante diferentes ao que hoje se aplica a Von Wernich.

A pena perpétua para padre argentino é festejada nas ruas

Fonte: Unisinos

Centenas de pessoas, incluindo membros de grupos de defesa de direitos humanos e de partidos políticos, foram às ruas para festejar a condenação de Von Wernich.

A notícia é do jornal O Estado de S. Paulo e dos jornais Clarín e Página/12, 10-10-2007.

`Que Deus te perdoe, porque nós já te condenamos`, dizia um cartaz exibido por um grupo de manifestantes. Eles queimaram um boneco que representava o religioso.

`Este é um dia histórico, não pensávamos que íamos viver para ver isto`, celebrou uma das líderes das Mães da Praça de Maio, Tati Almeyda.


A Igreja Católica vinha mantendo silêncio sobre o caso, mas ontem à noite a Conferência Episcopal Argentina (CEA) divulgou um comunicado manifestando sua `dor` pela `participação de um sacerdote em delitos gravíssimos`.


No comunicado, a CEA também pediu a reconciliação dos argentinos, afirmando que os passos da Justiça `são um chamado para que nos distanciemos tanto da impunidade como do ódio e do rancor`.
 (eles sempre falam e ódio e rancor quando a maré vira contra eles... interessante isso! falam tbm em anticristianismo, perseguição de ateus comunistas e coisas afins)

Von Wernich, que em diversas ocasiões fingiu ser amigo dos prisioneiros políticos, conseguia deles, por meio da confissão religiosa, informações secretas sobre colegas dos detidos que estavam na clandestinidade. Ele repassava a informação aos militares.

Além disso, o padre fazia torturas psicológicas e pedia dinheiro a famílias de presos, alegando que o usaria para subornar guardas a fim de obter a libertação de detidos. Von Wernich chegou a acompanhar um grupo de prisioneiros até um descampado na Grande Buenos Aires, onde eles supostamente seriam libertados. Em vez disso, acabaram fuzilados.

O sacerdote também participou dos `vôos da morte`, dos quais presos eram jogados, ainda vivos, no Rio da Prata. Ele abençoava os militares que jogavam os prisioneiros.

Após o fim da ditadura, Von Wernich fugiu para o Chile, onde morou até 2003, quando foi descoberto e extraditado para a Argentina. O regime militar foi responsável pelo assassinato de 30 mil civis.

Caso Wernich: "A Igreja e o Exército estavam decididos a transformar a Argentina laica numa nação católica"

Fonte:Unisinos

A condenação à prisão perpétua do padre argentino Christian Von Wernich - por 7 homicídios, 31 casos de tortura e 42 seqüestros durante a ditadura de 1976-83 - revela a conivência da Igreja Católica com o antigo regime militar do país, afirmou Loris Zanatta, historiador italiano da Universidade de Bologna e especialista nas relações entre Exército e Igreja na Argentina. `Tanto a Igreja quanto o Exército estavam decididos a transformar a Argentina laica numa nação católica`, disse Zanatta ao Estado de S. Paulo, 12-10-2007. A seguir, trechos da entrevista:


Como o sr. descreveria a relação entre o Exército, a Igreja Católica e os católicos de maneira geral na Argentina?
Na história argentina, o Exército foi um canal privilegiado de `catolização` do Estado. Desde então, o Exército e a Igreja não somente mantiveram uma estreita aliança doutrinária e institucional, como também reivindicaram e exerceram uma espécie de `monopólio da identidade nacional`, intervindo contra todas as forças que, segundo seu sistema de valores, a desafiavam.


Nesse contexto, qual é o significado da condenação de Christian Von Wernich para a Igreja Católica argentina?
A condenação de Von Wernich tem um valor essencialmente simbólico, no sentido de que revela os excessos horrendos cometidos pelos mais fanáticos defensores da pretensão de exercer o monopólio da identidade nacional e da legitimidade política. E revela também a responsabilidade eclesiástica no espiral de autoritarismo em que caiu a sociedade argentina no final do século 20.


O sr. acredita que a cúpula da Igreja conhecia as atividades do capelão?
Não é possível ter certeza, mas posso supor, a partir de minha experiência, que o corpo de capelães militares sabia ou estava em condições de imaginar o que fazia e dizia Von Wernich. Está muito claro que esse capelão devia ter um perfil criminal especialmente odioso.


Em sua reação à condenação, o episcopado argentino pediu `perdão`. Como o sr. analisa essa declaração? Vê algum tipo de cinismo?
Acho que, efetivamente, uma parte da nova geração eclesiástica que chegou ao episcopado recentemente assumiu as responsabilidades que cabem à instituição. Provavelmente isso não é o suficiente e traços da antiga cultura continuam em vários ambientes da Igreja. Ainda assim, não podemos esquecer que a instrumentalização da mensagem religiosa para fins políticos e ideológicos foi naquela época muito difundida, e até os Montoneros (grupo guerrilheiro esquerdista argentino) tinham capelães que benziam suas armas. Digamos que, colocado o catolicismo no centro da nacionalidade, seu ideário e missão terminaram por incorporar e transformar em lutas religiosas todos os conflitos que atravessavam uma sociedade profundamente dividida.

Padre da ditadura argentina pode pegar perpétua

Fonte: Unisinos



O padre argentino Christian Von Wernich, acusado de 7 homicídios, 31 casos de tortura e 42 seqüestros durante a ditadura militar (1976-83), pode ser condenado hoje à prisão por crimes contra a humanidade e genocídio. Von Wernich, de 69 anos, seria assim o primeiro padre católico das Américas condenado à cadeia por tais crimes. A reportagem é de Ariel Palacios e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 9-10-2007.

O Tribunal Federal Número 1 da cidade de La Plata, capital da Província de Buenos Aires, anunciará entre hoje e amanhã o veredicto e a sentença. A promotoria pediu ontem prisão perpétua para o ex-capelão da polícia de Buenos Aires. O réu acompanhou atentamente ontem os últimos argumentos da promotoria no tribunal. Há a expectativa de que o padre faça um pronunciamento hoje, antes do anúncio do veredicto.

Von Wernich, que em diversas ocasiões fingiu ser amigo dos prisioneiros políticos, conseguia deles, por meio da confissão religiosa, informações secretas sobre colegas dos detidos que estavam na clandestinidade. Von Wernich repassava a informação aos oficiais.

Além disso, o padre é acusado de torturas psicológicas e de ter pedido dinheiro a famílias de presos. Ele dizia às famílias que com o dinheiro subornaria guardas para garantir a liberdade de parentes detidos e pagaria passaportes falsos e passagens aéreas para o exterior, onde estariam a salvo. Parentes de presos pagaram ao padre, que embolsou o dinheiro. Para manter a farsa, Von Wernich acompanhou um grupo de presos no transporte até um descampado na Grande Buenos Aires, onde os prisioneiros, que esperavam a liberdade, foram fuzilados.

Se for condenado à prisão perpétua, Von Wernich seguirá o caminho de um velho amigo dele, o ex-diretor de investigações da polícia de Buenos Aires Miguel Etchecolatz, condenado em setembro de 2006 por torturas e assassinatos de civis durante a ditadura.

Ambos eram homens de confiança do general Ramón Camps, já falecido, que defendia o extermínio dos prisioneiros políticos, além da morte de seus filhos, pois considerava que “a subversão era hereditária”.

Von Wernich também participou dos “vôos da morte”, dos quais presos eram jogados, ainda vivos, no Rio da Prata. O padre abençoava os oficiais que jogavam os prisioneiros.

Após o fim da ditadura, Von Wernich fugiu para o Chile, onde foi descoberto em 2003 e extraditado para a Argentina. Segundo os advogados das vítimas, ele foi uma peça emblemática do mecanismo da ditadura para eliminar todo tipo de opositores. O regime militar foi responsável pelo assassinato de 30 mil civis.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Argentina julga padre torturador

6/7/2007

unisinos

“O padre Von Wernich nos visitou e disse que não deveríamos odiar. Apesar do medo que eu tinha, tomei coragem para dizer-lhe que ficava difícil sentir amor quando havia cinco pessoas me torturando. O padre respondeu que eu e meus colegas deveríamos pagar pelo que havíamos feito, deveríamos pagar com torturas, com mortes, com o que fosse necessário, pois éramos culpados.”

Esse depoimento, de Luis Velasco - sobrevivente dos campos de concentração da ditadura argentina (1976-1983) -, é uma das peças mais importantes do julgamento do ex-capelão da polícia Christian Von Wernich, iniciado ontem em La Plata, capital da Província de Buenos Aires.

A reportagem é de Ariel Palacios e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 6-07-2007. O processo de Von Wernich é manchete de primeira página nos jornais argentinos Página/12 e Clarín, 6-07-2007.

Hoje, na manchete principal do jornal, Página/12, afirma: "Agora mata calando". E no subtítulo informa que "o padre Von Wernich se negou declarar. O padre foi acusado no primeiro dia do julgamento de sete homicídios e 41 casos de privação de liberdade e torturas a pessoas seqüestrads em campos clandestinos".

Usando batina por baixo de um colete à prova de bala e sentado atrás de um vidro blindado, Von Wernich, de 69 anos, ouviu dos promotores a acusação de ter participado de 7 assassinatos, 31 torturas e 42 casos de detenção ilegal. O padre é o primeiro sacerdote da Igreja a ser julgado por crimes contra a humanidade.

Durante a ditadura, a Igreja argentina respaldou o regime militar ativamente, até mesmo participando da rede de inteligência para delatar opositores da ditadura e assistindo às sessões de tortura. Alguns de seus membros também proporcionavam conforto espiritual aos torturadores, aos quais indicavam que estavam prestando um serviço ao cristianismo por combater a “heresia”, o “ateísmo” e o “comunismo internacional”.

Von Wernich era um dos principais homens do general Ramón Camps, o poderoso chefe da Polícia da Província de Buenos Aires, a maior da Argentina. Camps defendia a tese de que era necessário eliminar não só os “subversivos”, como também seus filhos. Sua tese era a de que até os bebês carregavam uma “subversão hereditária”.

As testemunhas também indicam que Von Wernich participou dos chamados “vôos da morte”, nos quais os presos políticos eram lançados vivos de aviões no Rio da Prata. O padre abençoava os oficiais que empurravam os prisioneiros do avião.

Após o fim da ditadura, Von Wernich, para esquivar-se da ação dos organismos de defesa dos direitos humanos, refugiou-se num vilarejo do interior. Mas, em 1989, foi designado para a paróquia da cidade de Bragado, onde - apesar da oposição dos habitantes - se manteve como o padre local com apoio da cúpula da Igreja. Oito anos depois, fugiu para o Chile, onde mudou de nome e permaneceu incógnito, trabalhando numa paróquia. Em 2003, foi descoberto pela revista argentina TXT e extraditado para a Argentina.

Poucos anos após o fim da ditadura, Velasco - unido a Von Wernich por um parentesco distante - encontrou o padre, a quem perguntou: “O que você sentia quando assistia às torturas?” Von Wernich respondeu, sem titubear: “Nada! Absolutamente nada!”

Fora do edifício do tribunal, centenas de pessoas manifestaram-se pedindo prisão perpétua para Von Wernich. Os manifestantes - entre os quais, filhos de desaparecidos - chamavam Von Wernich de “nazista”.

O governo ordenou o aumento da segurança das testemunhas que participam do julgamento - diante do temor de que possam ser seqüestradas, como aconteceu com o aposentado Jorge Julio López, após depor contra outro ex-chefe da Polícia de Buenos Aires, Miguel Etchecolatz.

Argentina condena padre por crimes na ditadura

10/10/2007

unisinos

Vestindo uma batina e um colete à prova de balas, o padre Christian Federico von Wernich, 69, tornou-se ontem o primeiro membro da Igreja Católica a ser condenado por crimes cometidos durante a última ditadura militar na Argentina (1976-1983).

A reportagem é de Rodrigo Rötzsch e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 10-10-2007. A notícia é manchete dos principais jornais argentinos no dia de hoje. Os jornais Clarín e Página/12 dedicam amplo espaço ao tema.

O Tribunal Oral de La Plata considerou Von Wernich culpado, no papel de co-autor, de 42 seqüestros, 32 casos de tortura e sete homicídios - crimes contra a humanidade e genocídio - e o condenou à prisão perpétua.

O julgamento foi o terceiro realizado após a reabertura, em 2005, dos processos contra membros do regime militar na Argentina. Todos acabaram em condenação dos réus.

O veredicto foi atrasado em cerca de uma hora por uma ameaça de bomba que chegou a forçar a desocupação do prédio mas depois se revelou falsa. Centenas de pessoas se juntaram, sob chuva, às portas do tribunal com cartazes pedindo justiça. O público comemorou, inclusive com fogos de artifício, quando o juiz Carlos Rosansky anunciou que os crimes cometidos por Von Wernich configuravam genocídio.

Durante a ditadura, Von Wernich atuou como capelão da Polícia de Buenos Aires. Seu julgamento foi motivado por investigações da Comissão Nacional de Pessoas Desaparecidas, que indicou que o padre fazia uso do seu papel de confessor para extrair segredos dos torturados nas instalações de detenção ilegal da ditadura.

O pior crime imputado a Von Wernich foi a participação no assassinato de sete militantes peronistas, todos com menos de 28 anos de idade. Eles foram convencidos pelo padre a colaborar com seus captores em troca da liberdade, mas acabaram assassinados quando deixaram o centro de detenção - testemunhas afirmaram ao tribunal que Von Wernich estava no veículo que os levou ao local onde foram mortos.

A defesa do padre havia pedido a absolvição de seu cliente, afirmando que ele freqüentava os centros de detenção clandestina só para exercer suas funções de sacerdote.

Na sua exposição final, Von Wernich fez uma defesa não só sua, mas de toda a igreja. "Nunca nenhum sacerdote da Igreja Católica Apostólica Romana violou esse sacramento [da confissão] ou o usou para fins que não o de devolver aos homens a paz".


Papel da igreja
Mas sua condenação volta a pôr em foco a atuação da igreja no último regime militar. O ex-capelão da polícia não foi o único membro da instituição a apoiar a ditadura - a alta cúpula eclesiástica era próxima ao regime e há relatos de participação de religiosos nos chamados "vôos da morte", em que os presos eram atirados de aviões.

Organizações de direitos humanos cobram que a igreja reconheça enfaticamente sua responsabilidade por crimes cometidos sob a ditadura.

A Igreja Católica, que se manteve silenciosa durante os mais de três meses de julgamento, deve divulgar um comunicado sobre a condenação. O texto, porém, deve fazer referência apenas a responsabilidades individuais do padre.

É também provável que a arquidiocese de Nove de Julho decida tirar de Von Wernich o direito de exercer o sacerdócio, ainda em vigor apesar das acusações contra ele serem conhecidas desde 1984.

Durante o julgamento, o bispo Marcelo Melani, uma das cerca de cem testemunhas de acusação, fez uma espécie de mea-culpa. "Não se trata de julgarmos Von Wernich e sim de pensarmos que atitude tivemos cada um de nós, nossas comunidades e toda a igreja ante o avassalamento da vida e dos direitos mais elementares", disse.

Vítima e cúmplice: os caminhos da Igreja argentina nos anos de horror

unisinos

14/10/2007

A Igreja católica argentina, “partida em duas durante os anos da cega ditadura de Onganía, de claro conteúdo pré-conciliar (de Trento, se ironizava então), transitou os dois caminhos que tinha pela frente: a proximidade como os poderes de turno por um lado, e a participação no movimento de padres terceiromundistas, a Teologia da Libertação e a opção pelos pobres, por outro.

A última ditadura só fez aprofundar essa divisão da qual Von Wernich é seu aparente bode expiatório”, diz Alberto Amato em artigo publicado no Clarín, 10-10-2007. A tradução é do Cepat.

“A Igreja, que sofreu na própria carne o terrorismo de Estado, é vista como cúmplice silenciosa daquele horror, como se tivesse abençoado a ditadura, além de consolar e reconfortar os seus torturadores e assassinos”, conclui Amato.

Segue a íntegra do artigo.
Christian Von Wernich falou ontem [anteontem] de paz e reconciliação. Citou Jesus e seus Apóstolos e assegurou, apoiando-se na nossa Bíblia, que a paz permite pensar com liberdade. De passagem, referiu-se a falsos testemunhos, como para desacreditar a condenação que recebeu.

Não fez referência à verdade, necessária para a paz e a reconciliação, da qual a Bíblia também fala. Há vinte anos Von Wernich não falava assim. “Vivi uma guerra do ponto de vista ideológico, que é o de um conservador de centro”, disse numa reportagem a 7 Días, em 1984, que lhe valeu sete dias de detenção no Congresso Nacional.

Nesse espírito entre guerreiro e bíblico que separam o Von Wernich de 1984 do de ontem está parte do conflito não resolvido da Igreja argentina que hoje olha para aqueles anos de horror.

Partida em duas durante os anos da cega ditadura de Onganía, de claro conteúdo pré-conciliar (de Trento, se ironizava então), a Igreja transitou os dois caminhos que tinha pela frente: a proximidade como os poderes de turno por um lado, e a participação no movimento de padres terceiromundistas, a Teologia da Libertação e a opção pelos pobres, por outro. A última ditadura só fez aprofundar essa divisão da qual Von Wernich é seu aparente bode expiatório.

“Quererá Cristo que algum dia as Forças Armadas estejam além de sua função? O Exército está expiando a impureza de nosso país. Os militares foram purificados no Jordão do sangue para colocarem-se à frente de todo o país”, disse em setembro de 1975 o vigário geral do Exército, monsenhor Victorio Bonamín.

Não era o único anúncio do horror por vir, com a desculpa de enfrentar o delírio guerrilheiro, já quase derrotado quando ocorreu o golpe de 24 de março de 1976.

O próprio Von Wernich disse naquela reportagem a 7 Días. “(...) Que me digam que [o general Ramón] Camps torturou um negrinho que ninguém conhece, vá lá. Mas como iria torturar Jacobo Timerman, um jornalista sobre o qual houve uma constante e decisiva pressão mundial... Que se não fosse por isso...”.

Se houve autoridades eclesiásticas “processistas” houve bispos que foram contrários à ditadura, como Vicente Zaspe, Jorge Novak, Esteban Hesayne, Jaime de Nevares, Enrique Angelelli, assassinado em agosto de 1976, e monsenhor Carlos Ponce de León, também assassinado em 1977.

Ao menos 18 sacerdotes foram assassinados ou figuram como desaparecidos, entre eles os palotinos baleados em julho de 1976; outros dez padres estiveram presos na ditadura; trinta foram seqüestrados e levados para os centros clandestinos de detenção e em seguida libertados; onze seminaristas foram assassinados ou figuram como desaparecidos e, é muito difícil de calcular, mas se acredita que são mais de cinqüenta os leigos católicos vítimas da repressão ilegal.

A Igreja, que sofreu na própria carne 
o terrorismo de Estado, é vista como cúmplice silenciosa daquele horror, como se tivesse abençoado a ditadura, além de consolar e reconfortar 
os seus torturadores e assassinos.

Cada vez que esses fantasmas do passado se agitam, a hierarquia eclesiástica argentina teme, e freia, um eventual julgamento do Episcopado da época. Em 1996, o ato de contrição dos bispos admitiu que o que foi feito nesses anos “não foi suficiente para impedir tanto horror”; lamentou que tenha havido católicos que “justificaram e participaram da guerrilha e arrastaram lastimavelmente a muitos jovens. E houve grupos entre os quais se contaram muitos filhos da Igreja, que responderam ilegalmente à guerrilha de uma maneira ilegal e atroz que nos envergonha a todos”.

Muitos não se conformaram com a descrição do fenômeno, inclusive alguns setores da própria Igreja. “A Igreja não matou, mas não salvou. Devemos estar do lado dos crucificados e não tão perto dos crucificadores”, disse o padre Rubén Capitanio a Von Wernich no processo de julgamento deste último.

“A Igreja não moveu um só dedo pela morte violenta de um dos seus”, disse o padre Arturo Pinto, que acompanhava Angelelli no dia em que foi assassinado.

“A Igreja poderia ter feito mais”, disseram em 1995 dois arcebispos, Carlos Galán e Domingo Castagna, e três bispos: Justo Laguna, Jorge Caseretto e Emilio Bianchi Di Cárcano.

Nem o Governo escapou da polêmica. Quando a Igreja criticou sua visão parcial do que aconteceu nos tormentosos anos 70, o presidente Néstor Kirchner respondeu com uma iracunda pergunta: “Aonde estavam os bispos quando aqui desapareciam crianças?” Tempos depois, num gesto de distensão, Kirchner e o cardeal Jorge Bergoglio participaram juntos de um ato na Paróquia onde foram assassinados os palotinos.

É possível pedir às autoridades eclesiásticas uma contrição maior, no momento em que pela primeira vez na história argentina um de seus sacerdotes é condenado por torturas, seqüestros e assassinatos? Von Wernich não pensava nisso quando ontem falou de paz e reconciliação.

Houve compromissos da Igreja com a repressão na Argentina, diz Pérez Esquivel

15/9/2007

unisinos

“Deus não mata.” Essa inscrição, escrita com o próprio sangue por um detento na parede da Superintendência de Segurança Federal, deixou uma marca que nunca mais se apagou no Prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel.

Na última audiência contra o ex-capelão da Polícia bonaerense Christian von Wernich, tanto a Igreja Católica argentina como o Vaticano foram duramente questionados. “Tratei de motivar a cúpula da Igreja para que nos ajudasse na busca dos desaparecidos, mas nunca tivemos resposta”, afirmou.

Depois de relatar seu cativeiro e a vôo da morte do qual se salvou, Pérez Esquivel sentenciou: “Houve concepções ideológicas e interesses que levaram setores da Igreja a se comprometerem com a ditadura e com a repressão”.

A matéria é do jornal Página/12, 14-09-2007. A tradução é do Cepat.


Em sua declaração, descreveu um encontro com o Papa João Paulo II no qual lhe apresentou um relatório com 84 casos de crianças desaparecidas e recebeu uma resposta: “Você tem que pensar também nas crianças dos países comunistas”.

Diante do tribunal também se apresentou o teólogo e ex-sacerdote, Rubén Dri, que enviou ao então presidente da Conferência Episcopal, o cardeal Raúl Primatesta, um documento sobre as violações dos Direitos Humanos que nunca foi respondido.

Os familiares dos funcionários civis que deviam declarar ontem por sua participação na última ditadura, não ficaram para escutar o relato de Pérez Esquivel, presidente do Serviço de Paz e Justiça (Serpaj) na América Latina.

Ele tinha sido citado como Prêmio Nobel da Paz – para o qual foi candidato estando no cativeiro – e por sua participação no Movimento Cristão não violento na América Latina que, em 1975, deu lugar ao Movimento Ecumênico e à Assembléia Permanente pelos Direitos Humanos.

Com seu testemunho, Esquivel deu contas das similitudes do processo militar em toda a América Latina e do “avanço entre luzes e sombras, com grandes contrastes” da Igreja.

Depois de 24 de março de 1976, abandonou o país e viajou para Riobamba, Equador, onde foi preso junto com 14 bispos latino-americanos e 4 norte-americanos por um batalhão do exército local num episódio que foi relacionado com a “Operação Condor” e “a internacional do terror”.

Ali também foram acusados de subversivos, e o bispo de Riobamba lhes respondeu: “O único livro subversivo que temos é o Evangelho”. Para esse encontro eram aguardados dois bispos argentinos, Enrique Angelelli, de La Rioja, e Vicente Zaspe, de Santa Fé. “Com Angelelli havia falado alguns dias antes de seu assassinato. Tinha dificuldades para chegar ao Equador porque haviam assassinado dois sacerdotes de sua diocese”, detalhou Pérez Esquivel de suas últimas conversações com o bispo. “O que acontecia quando se trabalhava nas favelas – declarou –, quando se atendia os pobres e os camponeses, quando se trabalhava com os setores mais necessitados, era que o sistema os via como inimigos”.


De volta à Argentina, no dia 4 de abril de 1977, Pérez Esquivel foi preso no departamento de polícia quando tentava renovar seu passaporte. A partir de então passou pela Superintendência de Segurança Federal – para onde também levaram o diretor do jornal Buenos Aires Herald, Robert Cox e a família Graiver –, pela base aérea de Morón em El Palomar e pela Unidade número 9 de La Plata. “Nunca fui interrogado apesar das torturas”, resumiu. Além disso, fez uma análise clara sobre a situação geral: “A doutrina da segurança nacional, imposta como política para todo o continente, é muito clara: assinala que é preciso esvaziar a religião de conteúdo por causa da ação psicossocial que exerce sobre os povos”.

Em 1981, aconteceu a primeira audiência com o Papa. As Mães e as Avós da Praça de Maio – que ainda estavam em formação – haviam elaborado um relatório com o caso de 84 crianças seqüestradas e desaparecidas no país. “Eu o entreguei nas mãos do Papa – lembrou. Não foi uma reunião feliz. Foi uma reunião muito complicada, um recebimento muito duro e muito frio. Disse ao Papa que lhe levava o dossiê que nos havia sido dado por Chicha Mariani, fundadora das Avós da Praça de Maio”.

“Mandei este relatório por três canais diferentes, mas ele me disse que o mesmo nunca chegou em suas mãos. O Papa guardou isso e depois, muito mal humorado, me disse: Você tem que pensar nas crianças dos países comunistas. Eu lhe respondi que temos que pensar em todas as crianças do mundo, mas estas são crianças seqüestradas e desaparecidas na Argentina por uma ditadura que se diz cristã e ocidental”, relatou.

Em outras oportunidades a Nunciatura Apostólica recebeu uma chamada de intervenção por parte do Vaticano. Alguns desses encontros com o núncio Pio Laghi “foram muito duros e muito críticos”. “Aqui estiveram os três comandantes à noite e lhes falei da questão dos desaparecidos e sobre os direitos humanos na Argentina. O que quer que faça?, eu não posso fazer o que os bispos argentinos não querem fazer”, foi a resposta de Pio Laghi numa dessas reuniões, segundo relatou Pérez Esquivel.

Na madrugada de 5 de maio de 1977 o levaram até o que Pérez Esquivel reconheceu como o aeroporto de San Justo. “Vejo na pista um avião – relatou – e me algemam. O avião era pequeno. Havia um oficial, um suboficial, três soldados, o piloto e o co-piloto. Voa sobre o Rio da Prata, o Paraná das Palmas, o Paraná Guazú, o Paraná Mirim, a ilha Martín García, reconheço a costa do Uruguai, a barra de San Juan. O avião dá voltas e voltas sobre esse lugar até que chega uma ordem para que o avião se dirigisse à Base Aérea de Morón, no Palomar. Ou seja, sou um sobrevivente desses vôos da morte”.

O último testemunho pertenceu a Rubén Dri, teólogo e filósofo que havia sido ordenado sacerdote em Chaco e que teve que se exilar no México a partir de 1976. Ali elaborou um documento sobre as violações dos Direitos Humanos que enviou ao cardeal Primatesta sem que este lhe respondesse. “Achávamos estranho que a hierarquia eclesiástica não denunciasse estes terríveis fatos”, confessou. Além disso, criticou a existência das capelanias porque os militares podem confessar-se com o sacerdote que lhe corresponde.

No julgamento se colocou o problema da responsabilidade do capelão que, segundo Dri, se após denunciar os fatos ao seu bispo não recebe a ordem de abandonar seu cargo, deve renunciar por sua própria conta. “É uma aberração aceitar trabalhar num lugar em que se violam todos os direitos cristãos”. Recusou totalmente que possam ser consideradas como confissões as condições em que Von Wernich atuava nos centros clandestinos. “A confissão não é válida se o que a recebe pertence a outra religião” e, em sendo católico, “tem que haver um consentimento absolutamente explícito”, esclareceu. Além disso, sustentou que é um ato totalmente privado, razão pela qual não é lícito que haja outras pessoas presentes nesse momento.

Corte argentina anula indulto de repressor

14/7/2007

unisinos

A Corte Suprema argentina deu ontem mais um passo para permitir que os repressores da última ditadura militar no país (1976-1983) sejam julgados por supostos crimes cometidos durante o regime ao declarar inconstitucional o indulto concedido pelo presidente Carlos Menem, em 1989, a Omar Santiago Riveros, 83. Riveros comandava os Institutos Militares, órgão que controlou centros de detenção clandestinos.

Antes de ser indultado, Riveros cumpria pena por homicídio qualificado, crime pelo qual foi julgado em 1985. A reportagem é de Rodrigo Rötzsch e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 14-07-2007. A notícia é destaque de primeira página dos jornais Clarín, Página/12 e La Razón de hoje.

A decisão da Corte, tomada por quatro votos a favor, dois contrários e uma abstenção, abre caminho para que sejam declarados nulos os indultos contra outras dezenas de militares indultados por Menem, como Jorge Rafael Videla e Eduardo Massera, integrantes da junta militar que governou a Argentina entre 1976 e 1981. Um tribunal de instância inferior já considerou inconstitucionais os indultos contra Massera e Videla.

A decisão de ontem da Corte Suprema se soma a duas outras tomadas já durante o governo Néstor Kirchner, no qual foram nomeados quatro dos sete membros da Corte: a de que crimes contra a humanidade não prescrevem e a anulação das leis da Obediência Devida e do Ponto Final, que, ainda no governo de Raúl Alfonsín (1983-89), puseram fim ao processo de julgamentos dos acusados por crimes durante a ditadura.

Até hoje, as decisões da Corte permitiram a reabertura de 990 causas contra participantes do regime militar. Já foram condenados o policial Julio Simón e o ex-chefe da polícia de Buenos Aires Miguel Etchecolatz.

Na semana passada, começou o julgamento do ex-capelão da polícia Christian von Wernich, primeiro padre a ser julgado por supostos crimes cometidos na ditadura.


Ao justificar sua decisão, a Corte declarou que "os crimes contra a humanidade, por sua gravidade, são contrários não só à Constituição mas a toda a comunidade internacional". "Pesa sobre todos os Estados a obrigação de esclarecer tais crimes e identificar os culpados."

O ex-presidente Menem, hoje senador e pré-candidato à Presidência, criticou a decisão da Corte e as ações de Kirchner.

"O atual governo iniciou uma política de revisão do passado que não faz mais do que reavivar ódios [...]. Kirchner imprimiu uma visão torta, destinada a anular os indultos de uma das partes, enquanto se preservam vigentes os da outra, os das organizações terroristas", escreveu Menem, em nota.


Competência
A decisão da Corte ontem se refere ao decreto 1002/1989, pelo qual Menem indultou militares processados por homicídios, privações ilegais de liberdade e outros delitos.

Não afeta, porém, o decreto 1003 do mesmo ano, com o qual o então presidente anistiou 64 processados por atos subversivos na ditadura. Entre os indultados neste último, está o deputado federal Miguel Bonasso, ex-militante do grupo radical montoneros e hoje na base de apoio de Kirchner.

Organismos de direitos humanos e as Mães da Praça de Maio elogiaram a decisão da Corte, mas criticaram outra também tomada ontem pelos ministros: eles consideraram que a Câmara dos Deputados não pode impedir a posse de um parlamentar eleito, como fez em 1999 com o ex-governador de Tucumán, Antonio Bussi, por sua atuação na ditadura.

O mandato de Bussi já terminou, mas a decisão pode beneficiar o ex-delegado Luis Patti, que foi proibido de assumir em 2006 e cujo mandato só vence em dois anos. Patti agora deve iniciar processo para tentar assumir sua vaga na Câmara.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Operação Condor. A estrutura continua existindo.

 Fonte: Unisinos

Entrevista especial com Neusa Maria Romanzini Pires


Batizada com o nome de Condor para “homenagear” a ave típica dos Andes e símbolo da astúcia na caça às suas presas, a Operação Condor foi uma colaboração entre vários regimes militares da América do Sul.

Foi montada para coordenar a repressão aos esquerdistas, opositores ao regime. Sua função principal era destruir todos aqueles que eram considerados adversários políticos perigosos aos sistemas ditatoriais montados na América Latina.

O primeiro passo da Operação Condor foi executar a imediata unificação de esforços de todos os aparatos repressivos das ditaduras que haviam se instalado. E conseguiram. Foi o que a pesquisadora Neusa Maria Romanzini Pires concluiu em sua tese de doutorado intitulada “Memória da dor - A Operação Condor”.

Na entrevista a seguir, cedida com exclusividade, por e-mail, à IHU On-Line, Neusa fala do árduo trabalho que teve para fazer um resgate histórico da Operação e concluir que sua criação foi feita aqui no Brasil e só anos mais tarde foi controlada pelos Estados Unidos, através da CIA.

Ela também conta sua própria história, pois descobriu, através da pesquisa, que seu pai foi a primeira vítima da Operação. “Eu acho que 40 ou 400 trucidados não fazem diferença, porque o genocídio é genocídio, holocausto é holocausto. A dor, a desagregação que provoca numa comunidade é igual, não é algo que se meça de forma estatística ou qualitativamente, matematicamente. A dor é uma coisa que não se mede dessa forma”, relata Neusa.

Neusa Maria Romanzini Pires é graduada em Ciências Econômicas pela Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas do Rio de Janeiro. Em 1990, conclui sua graduação em Geografia pela Universidade Veiga de Almeida, do Rio de Janeiro. Tem especialização em História da América Latina, em Geografia Regional e em Linguística Aplicada e LIteratura Comparada, toda pela UFRN. Realizou mestrado em Ciências Sociais e em Geografia na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Foi em seu doutorado que pesquisou “Memória da dor - A Operação Condor”, titulo obtido pela USP.

Confira a entrevista.
IHU On-Line – O que você traz de experiência pessoal ao trabalhar a “Memória da dor - A Operação Condor”?
Neusa Maria Romanzini Pires – O trabalho não deixa de ser um resgate da minha própria vida, já que sou um personagem desta história, sendo filha de um desaparecido político. Mas o trabalho não tem um cunho memorialista.

A primeira vítima da Operação Condor no Brasil foi o grupo do qual meu pai participava. Por isso, este trabalho foi muito difícil para mim. Eu tive que ter um grande cuidado para manter a neutralidade cientifica e um distanciamento ideológico, pois tive de ouvir as vozes da direita também.

Eu fiz entrevistas com o Coronel Ustra (1), que é apontado como o assassino do meu pai, com o General Fiúza (2), entre outros. Foi uma experiência riquíssima, um mergulho que, de certa forma, inclusive, serviu para montar um quebra-cabeça sobre o seqüestro do meu pai (3).

Agora, fui muito além, porque quando eu comecei o trabalho, o título nem seria esse. Para começar, eu nem imaginava que meu pai tinha sido vítima da Operação Condor. Quando eu terminei o mestrado e decidi por essa pesquisa, já ao iniciá-la comecei a ter surpresas com as entrevistas que fiz no Paraguai, na Argentina e nos Estados Unidos. Então, vi os arquivos dos desaparecidos políticos e fui caminhando nesse sentido até que encontrei a hipótese da tese, que foi o que eu defendi na qualificação.

IHU On-Line – E qual foi a hipótese?
Neusa Maria Romanzini Pires – De que a Operação Condor era realmente uma idéia brasileira e que a lenda da boa ditadura brasileira é lenda mesmo. Na realidade, nós exportamos isso para os outros países, como Chile e Argentina.

O fato de termos tido aqui poucos mortos e desaparecidos não significa nada, porque, ao mesmo tempo, tivemos mais de 30 mil torturados.

Precisamos levar em consideração que isso só demonstra eficiência da repressão brasileira. Demonstra, por exemplo, uma eficiência cirúrgica com que eles eliminaram toda a oposição do governo, tanto a oposição armada quanto a oposição representada pelas idéias. Sabemos que, no Brasil, foi feito de tudo para derrubar a ditadura, do abaixo-assinado à luta armada. Eu encontrei tudo isso na tese.

Alguns outros estudiosos defendiam que a Operação Condor tinha começado em 1975. Depois da minha qualificação na USP, há uns três anos, eles reconheceram que ela teria começado antes, pois o ano em que eu comecei o recorte é 1973. Conseqüentemente, acho que foi uma contribuição muito além do que esperavam. Por isso, repito, não foi um trabalho memorialista, embora saibamos que se o historiador teve a oportunidade de participar dos fatos, tem a obrigação de resgatar sua própria memória também, desde que ele tenha experiência e capacidade de manter neutralidade. Nesse sentido, acho que eu consegui muita coisa. Do ponto de vista científico e acadêmico, eu acho que pude resolver um equívoco histórico e abrir para que outros pesquisadores possam continuar este trabalho.

IHU On-Line – Como foram os anos de chumbo para quem enfrentou perdas durante a Operação Condor?
Neusa Maria Romanzini Pires – Quando alguém seqüestra um ente querido de uma família e some com o corpo, desaparece simplesmente com a pessoa, cria um trauma tão grande que praticamente tudo se transforma numa busca. A pessoa não sabe se é órfã, as mulheres não sabem se são viúvas, os pais não sabem se seus filhos estão mortos. Então, a vida toda gira em torno disso.

Eu fiquei grávida do meu primeiro filho e nem percebi, porque eu estava em Brasília tentando criar uma CPI para investigar o desaparecimento do meu pai. A gravidez do segundo filho eu também não percebi, pois  eu estava lutando pela anistia. Eu descobri, por ser militante também, que meu pai havia sido assassinado 15 dias depois do ocorrido, no entanto grande parte da minha vida foi dedicada a buscar a verdade sobre meu pai. Tivemos umas duas ou três testemunhas, além da testemunha que a ONU tem. A luta, depois disso, foi para saber em que circunstância isso aconteceu, porque parte da minha família, que não era militante, ficou com a vida paralisada.

Isso é tão traumatizante que muitos filhos, infelizmente, não tiveram nenhuma condição de ter uma vida normal. Agora eu tive sorte, porque morei no Chile, conversei muito com meu pai, morei no exílio com ele e sou militante desde os 13 anos.

Tive sorte porque eu me dediquei à pesquisa, aos estudos para procurar compreender e para continuar a luta dele. Isso porque eu sou, não é segredo para ninguém, comunista marxista. É claro que a perda foi horrível para mim, mas eu compreendo que ele morreu por uma causa na qual eu mesmo acredito.


Eu vi famílias se destruírem, pais e mães morrerem no desespero, além de ter assistido relatos terríveis. Eu acho que o que aconteceu (matar, ferir e depois não entregar o corpo para que a família possa enterrar da sua maneira, ou ver aquele morto para poder acreditar) é de uma covardia terrível. Até Jesus Cristo foi devolvido para seus familiares, não é mesmo?

Então, eu considero de uma brutalidade inadmissível e acho que não devia ser uma luta solitária desses familiares, nem de apenas pesquisadores e militantes: deveria ser uma luta de todos. Eu acho que 40 ou 400 trucidados não fazem diferença, porque o genocídio é genocídio, holocausto é holocausto. A dor, a desagregação que provoca numa comunidade é igual, não é algo que se meça de forma estatística ou qualitativamente, matematicamente. A dor é uma coisa que não se mede dessa forma.

IHU On-Line – Quais foram as memórias da dor com que você ficou desta época?
Neusa Maria Romanzini Pires – É uma coisa que não acaba não tem fim; é tão inexplicável. Eu estou tentando explicar para você e é tão difícil de compreender, porque enquanto outras pessoas estavam comemorando o milagre brasileiro (4), a Copa do Mundo (5), famílias sofriam, andavam desesperadas atrás de seus filhos, maridos, pais. É uma ferida que não cura.

IHU On-Line – E como sua família enfrentou isso?
Neusa Maria Romanzini Pires – Cada um tem uma forma de expressar. Eu acho que a melhor forma de enfrentar isso é ir de encontro a essa dor e vivê-la. Já que não nos deram a oportunidade do luto, eu aconselho a todo mundo que passou por isso a pesquisar, procurar, montar seu próprio quebra-cabeça, acompanhar tudo o que aconteceu até o último instante daquele familiar e sentir essa dor, porque ela faz parte da vida. No entanto, é uma dor que não tem perdão, não há nenhum acordo, indenização, nada que possa recuperar, por exemplo, aquelas mães que morreram sem saber o que aconteceu com seus filhos. É dilacerante.

IHU On-Line – Como você fez o resgate histórico durante sua pesquisa?
Neusa Maria Romanzini Pires – A pesquisa nunca teve um cunho memorialista, o que foi até bom pra mim, porque foi uma casualidade eu ter descoberto que meu pai era a vitima de estréia da Operação.

Eu faço um resgate da seguinte maneira: eu procurei ver qual foi o embrião da Operação. Foi assim que eu cheguei aos oficiais brasileiros e à conclusão de que foi o Brasil que exportou todo o conhecimento que, claro, já foi exportado da “Escola das Américas”, onde muitos oficiais brasileiros foram fazer seus cursos.

Muitos militares não são uns imbecis como muita gente pensa, isto é, eles estudam, saem da academia militar sabendo inglês, francês, alemão. Então, “esses caras” montaram uma operação e a CIA (7) só interferiu em 1975, pela necessidade de derrubar o Salvador Allende (8). Aí ela (quem?) organiza uma operação. Por isso eu consegui tantos dados das vítimas anteriores a 1975.

Quando ela é formalizada e institucionalizada, quando a CIA assume o controle, a Operação começa a ficar mais difícil de localizar os corpos, porque ela começou a ficar mais refinada. Isso tudo “em defesa” de uma reorganização capital da América Latina que, segundo os Estados Unidos, precisava ser feito naquele momento.

Atualmente, estamos passando pelo mesmo problema, enfrentando novamente a necessidade dos Estados Unidos, pois ele está em crise, precisa de uma reorganização está com problemas com os governos daqui. Ninguém sabe o que vai acontecer.

Eu sempre gosto de deixar claro que minha contribuição foi essa: mostrar que a Operação Condor foi iniciada anteriormente à reunião de 1975, não importa o nome que tenha adotado e que foi uma idéia brasileira. Uma idéia do nosso serviço secreto.

E que, em 1975, a CIA assumiu o controle até achar que o perigo tinha acabado e desapareceu na selva da América Central com a derrota do sandinismo (9).

Mas eu quero afirmar uma coisa que eu acho importante: aquilo que criou a Condor só pede um motivo para retornar. Aquilo que criou a Condor só pede uma razão para ser reativada. Porque a estrutura continua existindo...

Notas:
(1) Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra comandou o DOI-Codi de São Paulo de 1970 a 1974. No período que esteve à frente do órgão ligado aos militares foram relatados mais de 502 casos de tortura.

(2) A Repressão teve como Comandante principal o General Fiúza, chefe da 6ª Região Militar, com sede em Salvador/BA. Homem de confiança do Presidente Geisel, foi quem determinou ao Tenente Coronel Oscar, do Exército Brasileiro, a desrespeitar a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Convenção de Genebra e a espécie humana, na medida em que massacrou, alquebrou, humilhou e torturou físico, moral e psiquicamente, homens da envergadura de Wellington Mangueira, Faustino Alves Menezes, Delmo Naziazeno, Rosalvo Alexandre, Pedro Hilário, Bittencourt, Gervázio dos Santos (o Careca), João Santana Sobrinho, Asclepíades dos Santos, Seu Durval, Juca da Leste e tantos outros ilustres combatentes da causa da liberdade de expressão e do livre pensar.

(3) Desaparecido desde 1973, quando tinha 50 anos, Joaquim Pires Cerveira foi Major do Exército Brasileiro passou à reserva pelo Ato Institucional n. 1, de 1964. Conforme documentos encontrados nos arquivos do antigo DOPS/SP foi preso no dia 21 de outubro de 1965 e encaminhado à 5ª Região Militar e entregue ao Coronel Fragomini. Em 29 de maio de 1967, foi absolvido pelo Conselho Especial de Justiça da 5ª Auditoria, da denúncia do processo 324, por crime de subversão. Foi preso novamente, em 1970, com sua mulher e o filho, que foram torturados no DOI-CODI/RJ. Foi banido do país em junho de 1970. Foi preso em Buenos Aires em 11 de dezembro de 1973, juntamente com João Batista Rita, por policiais brasileiros, provavelmente comandados pelo delegado Sérgio Fleury. Ambos foram vistos por alguns presos políticos no DOI-CODI/RJ, quando chegavam trazidos por uma ambulância. Estavam amarrados juntos, em posição fetal, tendo os rostos inchados, esburacados e repletos de sangue na cabeça.

(4) É a denominação dada à época de excepcional crescimento econômico ocorrido durante a ditadura militar, especialmente entre 1969 e 1973, no governo Médici. Nesse período áureo do desenvolvimento brasileiro em que, paradoxalmente, houve aumento da concentração de renda e da pobreza, instaurou-se um pensamento ufanista de “Brasil potência”, que se evidencia com a conquista da terceira Copa do Mundo de Futebol em 1970 no México, e a criação do mote de significado dúbio: “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

(5) Em 21 de junho de 1970 O Brasil vence a Copa do Mundo de futebol conquistando a posse definitiva da Taça Jules Rimet. O evento aconteceu no México.

(6) Central Intelligence Agency (em português Agência Central de Inteligência, sigla: CIA) é um serviço de inteligência dos Estados Unidos da América. CIA foi criada em 1947 nos Estados Unidos, pelo Presidente Harry S. Truman (1884 - 1972), para tal, foi editado um Acto Governamental de Segurança Nacional. A criação da CIA para os norte americanos foi uma necessidade estratégica devido ao início da Guerra Fria e o avanço do comunismo. A espionagem estrangeira, o roubo de projetos da área tecnológica, de armamentos, a fuga de informações, estavam causando prejuízos ao país, houve então, a necessidade de vigiar e relatar todos os assuntos referentes à segurança nacional ao Presidente, procurando a melhor forma possível interferir e neutralizar os efeitos negativos oriundos de ameaças externas .

(7) Salvador Allende foi um médico, político e estadista chileno. Foi o primeiro marxista eleito democraticamente presidente de um país da América Latina.

(8) Movimento político que teve por finalidade a derrubada da família Somoza do governo da Nicarágua.

A Igreja argentina e a ditadura militar

14/10/2007

Fonte :  Unisinos
 "O que o julgamento [de Von Wernich] permitiu foi jogar verdade sobre o que aconteceu e provar, de acordo com as exigências da Justiça, o fato inegável das responsabilidades institucionais por parte da Igreja católica argentina nas violações aos direitos humanos", escreve Washington Uranga.

Na opinião de Uranga, "a condenação do sacerdote Von Wernich por genocídio constitui provavelmente a mancha mais grave da Igreja católica argentina em toda a sua história". Mas, essa condenação "de pouco servirá se os responsáveis eclesiásticos não virem isto como um ensinamento dirigido à instituição.

Seguramente, a sociedade teria outra imagem da Igreja argentina se, recuperando o sentido espiritual da tradição cristã sobre a reconciliação, os bispos optassem por assumir institucionalmente as culpas, agradecer pela verdade e pela justiça, pedir perdão e procurar a reparação dos males causados às vítimas", conclui.

Segue a íntegra do artigo de Washington Uranga publicado no Página/12, 10-10-2007. A tradução é do Cepat.

O julgamento e a condenação do sacerdote católico Christian Federico Von Wernich não pode ser lido apenas como uma sanção da sociedade contra um ministro religioso, pretendendo que o ex-capelão da Polícia de Buenos Aires agiu de forma totalmente isolada e com desconhecimento de seus superiores eclesiásticos.

Tampouco seria justo englobar na sentença toda a instituição eclesiástica, em cujo seio também se abrigam algumas das vítimas do padre repressor, dos policiais e militares que ele acompanhou e cujo agir justificou do ponto de vista do discurso ideológico e religioso.

O que o julgamento permitiu foi jogar verdade sobre o que aconteceu e provar, de acordo com as exigências da Justiça, o fato inegável das responsabilidades institucionais por parte da Igreja católica argentina nas violações aos direitos humanos.

Trata-se das mesmas responsabilidades institucionais das quais os bispos tentaram se esquivar antes e agora ao reafirmarem o que foi dito pela Comissão Permanente do Episcopado no dia 8 de março de 1995 num comunicado sobre "a repressão violenta durante o governo militar".

Na época sustentaram, e agora reiteram, que "se algum membro da Igreja, qualquer que foi sua condição, apoiou com sua recomendação ou cumplicidade algum desses fatos (a repressão violenta), agiu sob sua responsabilidade pessoal, errando ou pecando gravemente contra Deus, a humanidade e a sua consciência".

Com a mesma intenção se recorda agora o insuficiente reconhecimento feito no dia 8 de setembro de 2000 em Córdoba, dentro da celebração do Congresso Eucarístico Nacional.

Nessa ocasião os bispos pediram perdão "pelos silêncios responsáveis e pela participação efetiva de muitos de (seus) teus filhos em tanto desencontro político, no desrespeito às liberdades, na tortura e delação, na perseguição política e na intransigência ideológica, nas lutas e nas guerras, e na morte absurda que ensangüentaram o nosso país".

"A Igreja não erra, mas seus filhos, sim". Esse é o raciocínio utilizado pelos bispos.

O que dizer então do bispo Victorio Bonamín, que, sendo pró-vigário castrense, alentou o golpe de Estado com uma pergunta: "Quererá Cristo que algum dia as Forças Armadas estejam além de sua função?"

Para sustentar logo que "o Exército está expiando a impureza de nosso país" e que "os militares foram purificados no Jordão do sangue para colocarem-se à frente de todo o país".

E a própria Conferência Episcopal, num documento de 15 de maio de 1976, sustentava que "seria errar" contra o bem comum se se pretendesse "que os organismos de segurança agissem com pureza química de tempos de paz, enquanto diariamente corre sangue".

O presidente da Conferência Episcopal em tempos de ditadura, Adolfo Servando Tortolo, sempre se mostrou um entusiasta defensor do regime ditatorial e justificou seus métodos da mesma maneira que o fez o arcebispo de La Plata, Antonio Plaza, ou o de San Luis, Juan Laise, para mencionar apenas alguns.

A instituição dos capelães militares e policiais, injustificável para muitos do ponto de vista pastoral, converteu-se numa ferramenta ideológico-religiosa para legitimar os maus-tratos.

Não houve nesse momento, como também não há agora, assunção institucional das responsabilidades.

Alguns bispos (com honrosas e valiosas exceções como Miguel Hesayne, Esteban de Nevares e Jorge Novak) tiveram que sofrer o isolamento de seus pares por seu compromisso na defesa dos direitos humanos e pela autocrítica em relação à ação institucional da Igreja sobre o próprio tema.
 
Longe de realizar a missão religiosa que lhe foi encomendada como capelão, Von Wernich agiu como parte integrante das forças de repressão comandadas pelo general Ramón Camps.

A condenação do sacerdote Von Wernich por genocídio constitui provavelmente a mancha mais grave da Igreja católica argentina em toda a sua história. Mas de pouco servirá se os responsáveis eclesiásticos não virem isto como um ensinamento dirigido à instituição. Seguramente, a sociedade teria outra imagem da Igreja argentina se, recuperando o sentido espiritual da tradição cristã sobre a reconciliação, os bispos optassem por assumir institucionalmente as culpas, agradecer pela verdade e pela justiça, pedir perdão e procurar a reparação dos males causados às vítimas. Esse é, definitivamente, o sentido cristão da reconciliação. Muito longe daquele que pretendeu dar-lhe Von Wernich na intervenção do julgamento que o condenou.
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