Filha da estilista Zuzu Angel, morta no governo Geisel, em 1976, a colunista Hildegard Angel não ficou surpresa com as revelações do memorando da CIA. Segundo ela, o gabinete de Geisel encomendou o atentado contra sua mãe, na saída do túnel Dois Irmãos, em São Conrado. “O caso de minha mãe está mais do que esclarecido. Não foi um acidente mal esclarecido”, diz.
Qual a sua reação diante do documento da CIA que revela a participação do general Geisel nas execuções durante a ditadura militar?
Vi como uma predestinação. Aqui no Brasil queimaram toda a documentação. Houve queima de arquivos. Fizemos um pacto sinistro. Houve um corporativismo fechado, uma blindagem da história brasileira. Mas havia um documento lá na sede do grande irmão. Eles não contavam com isso.
Você ficou surpresa com os fatos agora revelados?
Para mim não foi uma revelação. Quando o Claúdio Guerra, que foi delegado do DOPS, escreveu seu livro sobre a repressão, ele mencionou o caso de minha mãe (a estilista Zuzu Angel) e disse que o coronel Freddie Perdigão foi o organizador da emboscada encomendada que matou a minha mãe em 1976. Foi encomendada a ele diretamente pelo gabinete do Geisel. A Comissão da Verdade recorreu ao livro do agente do Dops e ele mencionou que havia foto do Perdigão no local do crime, na saída do túnel Dois Irmãos (hoje Zuzu Angel), em São Conrado.
Qual foi a conclusão das investigações?
O caso de mamãe foi investigado desde a Comissão dos Mortos e Desaparecidos até a Comissão Nacional da Verdade. As três comissões fizeram investigações, ouviram testemunhas e peritos, e concluíram que minha mãe foi vítima de uma emboscada por agentes do governo.
O ex-ministro da Justiça Miguel Reale conversou com duas testemunhas. Mas até hoje tem gente bem informada que atribui a morte de mamãe a um acidente mal esclarecido. Nunca um caso foi tão esclarecido. Esse é um cacoete nacional. Precisamos nos convencer da monstruosidade da ditadura brasileira. Por isso, ainda vemos jornalistas importantes escrevendo que houve um acidente mal esclarecido. Quando mal esclarecidos estamos nós.
A Comissão Nacional da Verdade reconheceu o crime do Estado contra Zuzu Angel?
Nossa família recebeu R$ 80 mil de indenização. E a comissão endossou o depoimento do Cláudio Guerra. Portanto, o Estado reconheceu que o gabinete de Geisel chancelou o atentado. Mas temos muita dificuldade de aceitar que vivemos isso. Talvez exatamente por isso estejamos vivendo esse momento em que se tenta qualificar a ditadura militar. Tentam justificar a ruptura democrática, seja na política, seja pelo Judiciário.
Você pretende reabrir o caso de sua mãe?
Vou primeiro ouvir o Nilo Batista, que ajudou na reconstituição da tortura e morte de meu irmão Stuart Angel, ouvir o Pedro Dallari, que ajudou no caso de minha mãe, e outras pessoas que possam me aconselhar. como o ex-deputado Nilmário Miranda. Depois tomarei a decisão.
Na coluna de Elio Gaspari, hoje, o recém-destronado da condição de “palavra final” sobre a história da ditadura militar diz que o general Golbery do Couto e Silva, eminência nem tão parda do regime, teria comentado sobre um documento palaciano:
“Estamos sofrendo uma ditadura dos órgãos de segurança. (…) toda vez que a cousa começa a acalmar o pessoal decide e cria troço, prende gente. Porque, você compreende, é para permanecer, para mostrar serviço. (…) A verdade é que eles fazem o que querem.”
É quase impossível transplantar a frase para os dias de hoje, substituindo-se o “órgãos de segurança” pelo bolo persecutório formado pelo Ministério Público, pela Polícia Federal e por voluntariosos juízes de primeira instância, à frente o juiz Sérgio Moro.
Como a “tigrada” militar, este núcleo age com a mais completa convicção de impunidade com que a bandeira do “combate à corrupção” os cobre, tal como a do “combate ao comunismo” dava sombra aos meirinhos da ditadura.
Em ambos os casos, a “causa” dava justificativa “moral” para os arreganhos de poder, as “cognições sumárias” de culpa e para a tortura, certo que de modo “civilizado” ante os paus-de-arara do regime ditatorial militar. Na ditadura judicial, substituiu-se-lhes pelas “alongadas prisões de Curitiba”, que fazem brotar, como então, confissões que, verdadeiras ou falsas, vão possibilitando tramar-se uma teia até onde as desejem as aranhas.
À parte a imperdoável cumplicidade dos chefes do poder militar com esta abjeção, vê-se claramente que os escalões inferiores na máquina repressiva tomaram os freios dos dentes e levaram os seus superiores – a alguns, “com gosto”, inclusive – a referendar obrigatoriamente o que faziam.
Ou vê-se algo diferente no Supremo Tribunal Federal , onde, invariavelmente, legitimam-se os arreganhos de 1ª instância?
Gaspari diz que a intenção de “seletivizar” os assassinatos, submetendo-os à autorização da cúpula formal do regime frustrou-se porque, agostumados ao gosto de carne humana, os tigres não se contentavam em devorar apenas o que lhes fosse autorizado.
Também aqui é notória a diviculdade de livrar deste apetite os que não são “subversivos perigosos”, mas apenas e sempre comedores de migalha do poder empresarial. Quer-se comer também os cachorros e a carne tucana resta como a única que inapetece às feras.
A advertência que o episódio da revelação da chancela presidencial às execuções do regime militar, para Gaspari dirigida, “as vivandeiras [de quartéis] e napoleões de hospício de hoje” deveria dirigir-se ao cardinalato de toga: “na ditadura praticaram-se crimes, e aquilo que pretendia ser ordem era uma enorme bagunça”.
A tigrada está aí, solta e com apetite insaciável, sob o olhar assustado dos que achavam que poderiam ser seus domadores.
A CIA achou que Geisel dominaria a ‘tigrada’
Elio Gaspari, na Folha
A história do Brasil continua a ser escrita pelos americanos. O documento da CIA que revelou o encontro do presidente Ernesto Geisel com três generais para discutir critérios para os assassinatos de dissidentes políticos avacalha os 40 anos de política de silêncio que os comandante militares cultivam em relação às práticas da “tigrada” dirigida pelo Centro de Informações do Exército, o CIE.
O documento mandado pelo diretor da CIA ao secretário de Estado Henry Kissinger revelou que, duas semanas depois de sua posse, Geisel fez uma reunião com o chefe do Serviço Nacional de Informações, João Baptista Figueiredo, e os generais Milton Tavares de Souza, comandante do CIE, e seu sucessor, Confúcio Avelino. Tavares de Souza, o “Miltinho”, era um asceta, radical, porém disciplinado. Confúcio, um medíocre.
Na reunião, “Miltinho” revelou que já haviam sido executadas 104 pessoas. Segundo a narrativa da CIA, a matança ficaria restrita aos “subversivos perigosos” e cada proposta de execução deveria ser levada ao general Figueiredo, para que ele a referendasse. Esse projeto de controle do Planalto sobre o CIE ficou na teoria, ou na imaginação da CIA.
No dia 11 de abril, quando o telegrama foi transmitido a Washington, circulava no Planalto um documento desconhecido, do qual sabe-se apenas a reação do general Golbery do Couto e Silva, chefe da Casa Civil de Geisel: “Estamos sofrendo uma ditadura dos órgãos de segurança. (…) toda vez que a cousa começa a acalmar o pessoal decide e cria troço, prende gente. Porque, você compreende, é para permanecer, para mostrar serviço. (…) A verdade é que eles fazem o que querem.”
Depois de abril, pelo menos 15 guerrilheiros do Araguaia foram mortos, e tanto Geisel como Figueiredo, “Miltinho”, Confúcio e Golbery sabiam que essa matança estava em curso desde outubro de 1973. (Executavam-se inclusive os jovens que atendiam ao convite de rendição e colaboravam com a tropa.)
Em janeiro de 1974, Geisel ouviu de um oficial do CIE uma narrativa das operações no Araguaia, onde haviam sido capturados 30 guerrilheiros. Geisel perguntou: “E esses 30, o que eles fizeram, liquidaram?” Resposta do tenente-coronel: “Alguns na própria ação. E outros presos depois. Não tem jeito, não.”
Semanas depois, ao convidar o general Dale Coutinho para o Ministério do Exército, ouviu dele que “o negócio melhorou muito, agora, melhorou, aqui entre nós, foi quando nós começamos a matar. Começamos a matar.” Geisel respondeu: “Esse negócio de matar é uma barbaridade, mas eu acho que tem que ser.”
A metodologia narrada pelo serviço americano foi seguida no extermínio da direção do Partido Comunista Brasileiro. Antes de 1974 os comunistas eram perseguidos ou presos, mas não eram assassinados. Em abril, três dirigentes comunistas haviam sido capturados e mortos pelo CIE. No ano seguinte, outros sete.
Com a destruição das siglas metidas em terrorismo, o CIE neutralizou a única organização esquerdista que agia na esfera política. Para isso, dispunha de pelo menos uma preciosa infiltração e conhecem-se casos de tentativas de recrutamento, pela CIA, de capas-pretas que viviam na clandestinidade.
À falta de dirigentes, em 1975 a “tigrada” continuou matando militantes em sessões de tortura. A ideia de controlar o CIE colocando-o sob a supervisão do Planalto simplesmente não funcionou.
Em 1976, depois da morte do operário Manoel Fiel Filho no DOI de São Paulo, Geisel demitiu o comandante do 2º Exército, general Ednardo D’Ávila Mello, e defenestrou Confúcio. Mesmo assim, só restabeleceu o primado da Presidência sobre as Forças Armadas em 1977, quando mandou embora o ministro do Exército, Sylvio Frota. (No dia da demissão de Frota, doidivanas do CIE pensaram em atacar o Palácio do Planalto.)
Para as vivandeiras e napoleões de hospício de hoje, o documento da CIA ensina que na ditadura praticaram-se crimes, e aquilo que pretendia ser ordem era uma enorme bagunça.
Como os guerrilheiros, Raimundo teria sido uma vítima — apenas mais recente — da ditadura? Quem matou Raimundo “Cacaúba”?
Há dois anos era assassinado em Serra Pelada (PA), Raimundo Clarindo
do Nascimento, o “Cacaúba”, a última vítima do Major Sebastião Curió e
da repressão política no Brasil.
Por Paulo Fonteles Filho e Sezostrys Alves da Costa
Em fins de junho de 2011 o ex-mateiro das forças armadas, um dos mais
importantes rastejadores recrutados pela repressão política na invasão
militar na região do Araguaia para debelar o movimento insurgente,
organizado pelo clandestino Partido Comunista do Brasil (PCdoB), é morto
estranhamente naquele distrito de Curionópolis (PA), depois da
presença, naquelas cercanias, de Sebastião Curió que, sabidamente, junto
a outros ex-agentes da repressão política, estiveram naquelas paragens
com intentos obscuros.
O próprio ano de 2011 representou uma viragem fundamental nos
trabalhos de investigação no sentido de localizar dezenas de
desaparecidos políticos na Guerrilha do Araguaia (1972-1975), possível,
sobretudo, pela corajosa sentença da Juíza Federal Solange Salgado que,
depois de transitado e julgado, obrigou a União em fins de 2007 a
localizar, identificar e esclarecer em que condições aqueles
brasileiros, lutadores pelas liberdades públicas, foram assassinados e
sofreram desaparecimentos forçados pelo estado terroristas dos generais.
Ocorre que o governo federal, para dar cabo à decisão judicial, criou
o Grupo de Trabalho Tocantins (GTT), do Ministério da Defesa que, entre
2009 e 2010, percorreu a região realizando diversas escavações, mas com
resultados bastante pífios. Em dois anos, uma ossada foi localizada, na
região do Tabocão, em Brejo Grande do Araguaia (PA).
Em relatório de fechamento do ano de 2010, a representação do Partido
Comunista do Brasil (PCdoB) presente naquele esforço institucional já
indicava que “(…) No curso da segunda expedição do Grupo de Trabalho
Tocantins tomamos conhecimento, através de denúncia de (…) da presença
de remanescentes da repressão ao movimento insurgente e que estariam
fazendo ameaças contra ex-colaboradores das Forças Armadas na região do
Araguaia para que os mesmos não subsidiem de informações o Grupo de
Trabalho Tocantins no sentido de realizar com êxito a tarefa de
localizar os desaparecidos políticos na Guerrilha do Araguaia. Em
contato com (…) podemos perceber a angústia daquele trabalhador rural
que foi barbaramente torturado naquele episódio da vida brasileira
porque um de seus algozes, conhecido como ‘Doutor Marcos’ que junto com
‘Doutor Ivan’ estiveram na região do conflito na segunda metade do mês
de junho de 2010 (…)”.
A viragem de 2011 ocorreu, sobretudo pelo ingresso, em tal
empreendimento civilizatório, do Ministério da Justiça e da Secretaria
de Direitos Humanos da Presidência da República, além da ampliação na
presença de familiares de desaparecidos políticos e de instituições
científicas ligadas ao tema. Criava-se, então, o Grupo de Trabalho
Araguaia (GTA) em fins do primeiro semestre daquele ano, substituindo o
moribundo GTT-MD.
O reforçamento institucional e da sociedade civil, agora perfilados
no GTA, vai atuar severamente no curso das investigações com a convicção
de que muitos dos despojos mortais dos desaparecidos políticos ainda se
encontravam na própria região do conflito.
Tomamos a consciência, depois de muita bola fora como ensina o jargão
do futebol, de que a grande maioria dos insurgentes araguaianos estava
sepultada em cemitérios da região, como indigentes, o que revela um
traço comum do modus-operandi da repressão política no Brasil, com
relação aos desaparecimentos forçados.
Mas o intento, mais avançado, vai provocar reações de remanescentes da ditadura militar em nosso país.
Em ofício formulado à Polícia Federal de Marabá, em fins de março de
2011, o pesquisador Paulo Fonteles Filho sinaliza que “No nascedouro de
2011, nos dias 26 e 27 de fevereiro do corrente ano vim até Marabá para
acompanhar (…) o encontro dos ex-soldados e ex-funcionários do INCRA que
atuaram na repressão ao movimento insurgente das matas do Pará. (…) No
encontro, tomamos ciência de que (…), ex-militar, motorista do Major
Curió entre os anos de 1976-1983, também estava sendo ameaçado. Tais
ameaças iniciaram-se em dezembro de 2010 depois que aquele ex-militar
passou a colaborar com os trabalhos do GTT-MD. (…) Na reunião de
fevereiro gravamos um extenso depoimento (…) onde, o mesmo, revela ter
participado de uma macabra “operação-limpeza” em 1976 em diversas
localidades na região do Araguaia. Disse, ainda, que o responsável pelas
ameaças que vêm sofrendo é (…) do Major Sebastião Curió. (…) Em
primeiro de março duas ligações anônimas são desferidas ao celular de
(…), sempre em chamadas confidenciais. No dia seguinte, uma caminhonete
peliculada, rondou de forma suspeita, insistentemente, nas imediações de
sua casa em (…). No mesmo dia, dois de março, por volta das 12 horas,
uma caminhonete cabine dupla, também peliculada, com quatro elementos
estranhos parou em frente à casa de Sezostrys Alves da Costa, dirigente
da Associação dos Torturados na Guerrilha do Araguaia, em São Domingos
(…). Dias depois soubemos (…) que quem esteve circulando pela região,
recentemente, é um tal de ‘Doutor Alceu’, ex-capitão do Exército,
ligadíssimo ao Major Curió (…). Sabemos que nossas vidas (…) de
camponeses e de ex-militares estão sob ameaça e se nada for feito, tenho
certeza, um episódio ainda mais grave poderá ocorrer (…)”.
Diante do avanço no nível das informações, sobretudo pelo relato de
ex-soldados que passaram a contribuir com o intento investigativo,
algumas figuras silenciadas por quase quarenta anos põem-se a falar,
seguramente estimuladas pela coragem de seus ex-companheiros como,
também, pela determinação dos familiares daqueles heróis nacionais, como
é o caso da incansável Diva Santana, irmã de Dinaelza Santana Coqueiro.
Nesse contexto é que Raimundo “Cacaúba” passa a contribuir com os
esforços investigativos e presta importantes informações sobre os
bastidores da famigerada atuação militar no Araguaia, verdadeira caçada
humana onde dezenas de opositores políticos foram assassinados sob a
custódia do exército brasileiro. Sabe-se hoje, com rigor documental, de
que a liquidação física fora decidida dentro do próprio Palácio do
Planalto, por Garrastazu Médici e Ernesto Geisel.
Recrutado pelo “Doutor Antônio”, comandante da base militar de São
Raimundo, violentíssimo agente da repressão, foi atuar como rastejador
nas cercanias da reserva dos Aikewára-Suruí em São Geraldo do Araguaia
(PA), em meados de 1973. Tal “Doutor Antônio”, segundo o relato colhido,
permanecera na região até janeiro de 1985 “procurando algum
guerrilheiro sobrevivente”.
Mas “Cacaúba”, depois de anos silenciosos, informara que “no local
conhecido por ‘Centrinho’, ao lado do Rio Sororozinho, conheceu ‘Zé
Carlos’ (André Grabois), ‘Ivo’ (José Lima Piauhy Dourado) e ‘Joca’
(Líbero Giancarlo Castiglia), este ferido no braço”. Teria, também,
conhecido “a ‘Valquíria’ (Walkiría Afonso Costa), moradora do São
Raimundo que apareceu em sua casa acompanhada de ‘Joca’ depois do
tiroteio com o ‘Juca’ (João Carlos Haas Sobrinho)”. Curiosa mesmo foi à
informação de que “os meninos do mato se comunicavam com os moradores
Antonio Monteiro (…), Luís Roque e Antonio Luís através de uma vara seca
e uma vara verde”.
Dentre as revelações está que “a Valquiría, muito magra, foi presa na
casa do ‘Zezinho’ e Maria ‘Fogoió’ e foi morta pelo Capitão Magno”. Tal
militar, Magno, é muito citado pelas torturas perpetradas contra os
camponeses e que teria sido um dos agentes que atuou, anos depois, na
prisão dos padres franceses do Araguaia, Aristide Camio e Francisco
Gouriou, no inicio dos anos de 1980.
A acusação era de que os religiosos promoviam a subversão e
intentavam, junto com o advogado da Comissão Pastoral da Terra, Paulo
Fonteles, novas guerrilhas e por isso foram enquadrados na Lei de
Segurança Nacional (LSN). Anos depois, em 1987, o advogado Paulo
Fonteles foi assassinado pelo latifúndio e o inquérito realizado indica
participação de antigos agentes do Dops e do extinto Serviço Nacional de
Informações (SNI), dentre eles James Sylvio de Vita Lopes, Romeu Tuma e
Rubinete Nazaré.
Com destemor indicou que na região da “Abobóra” viu “o ‘Joca’
amarrado com embira (fibra extraída de algumas árvores e que serve para a
fabricação de cordas), todo ‘obrado’ e muito machucado”. Teria
presenciado o traslado do combatente, depois de morto, para a Base de
Xambioá (TO) e de que lá fora sepultado. Citou que o “Amaury” (Paulo
Roberto Pereira Marques) fora preso “com o pé baleado e o ‘Doutor
Antunes’, da Base de São Raimundo, provocava-o perguntando se queria
comer um mutum e que o ‘Ivo’ foi preso e vestia calça azul tropical”.
Revelou-nos, ainda, sobre os codinomes de agentes da repressão
política, como é o caso dos doutores “Ivan”, ‘‘Maia”, “Molina” e “João”.
O tal ‘‘Molina”, citou, “Não falava igual a nós”.
A coleta de todas essas informações ocorreu em maio de 2011 e pouco
mais de um mês depois, em fins de junho, é assassinado estranhamente,
dias depois que o Major Curió esteve na região, realizando reunião com
aqueles que ainda lhes são fiéis.
Diante do fato, amplamente denunciado por nós, a Juíza Solange
Salgado determinou, em dezembro de 2011, que a Polícia Federal
realizasse investigação sobre prováveis ameaças e revelou, em entrevista
à Folha de São Paulo, na edição do dia 6 de março de 2012, que “Essa
questão do Araguaia está ficando muito preocupante, as ameaças são
recorrentes, há indícios concretos” além do que “as pessoas que viveram
naquele momento triste da história nacional e que hoje tentam colaborar
com a Justiça estão sendo ameaçadas de morte”.
Recentemente, em 2013, tomamos conhecimento de que a Polícia Civil do
Pará, responsável pelo inquérito, sequer abriu procedimento para apurar
o assassinato de Raimundo “Cacaúba”, o que torna o caso cada vez mais
singular.
Em dois anos de investigações, entre 2011 e 2012, o Grupo de Trabalho
Araguaia já exumou 14 ossadas, nos cemitérios de Xambioá (TO) e São
Geraldo do Araguaia (PA) e há, para 2013, a expectativa de que possamos
encontrar outros tantos desaparecidos políticos num dos mais importantes
sítios mortuários de Marabá (PA), cuja indicação fora realizada por
antigos colaboradores da repressão política.
Enquanto o Major Curió e outros ex-agentes do aparato repressivo
estiverem à solta, outros assassinatos podem ocorrer, além das pressões e
intimidações, própria de quem cometeu crimes de lesa-humanidade contra
brasileiros que lutaram pelo restabelecimento das liberdades
democráticas.
Não recuaremos.
Uma série de 4 reportagens, da TV Brasil, sobre um dos temas mais
marcantes da história recente do Brasil. A operação chamada Condor é o
resultado da articulação das ditaduras dos países do Cone Sul, na década
de 1970, para reprimir opositores.
A série de reportagens mostrara: a história de uma militante uruguaia
que escapou de um destino trágico, e também o drama de um militante
catarinense sequestrado na Argentina e que nunca mais foi visto; a
polêmica sobre a morte do ex-presidente João Goulart; a história do
gaúcho que lutou ao lado de Che Guevara e sumiu na Bolívia; e,
finalmente: a Comissão da Verdade vai investigar a aliança entre as
ditaduras do continente na década de 70
Publicado em 14/10/2013
O Instituto Presidente João Goulart, através de João Vicente Goulart, recebe a denúncia do então Major do Exército Erimá Pinheiro Moreira, esclarecendo em detalhes os motivos que levaram o general Kru a trair Jango e apoiar o golpe de 64, por um "punhado" de dólares enviados pelos EUA.
“Na Guatemala, o terror se transformou num espetáculo:
soldados, comissionados e patrulheiros civis estupravam as mulheres
diante dos maridos e dos filhos. O zelo anticomunista e o ódio racista
se disseminaram no desempenho da contrainsurgência. As matanças eram
inconcebivelmente brutais. Os soldados matavam crianças, lançando-as
contra rochas na presença dos pais. Extraíam órgãos e fetos, amputavam a
genitália e os membros perpetravam estupros múltiplos e em massa e
queimavam vivas algumas vítimas”.
O relato extraído do livro "A revolução guatemalteca",
(Greg Grandin, Editora UNESP, 2004), descreve os pormenores da política
de terrorismo de Estado promovida pelos governos dos EUA – com apoio de
Israel - contra os movimentos de resistência da nação maia nos anos 70 e
80.
Vale lembrar, destaca o autor, que “as práticas ensaiadas
na Guatemala – como as desestabilizações e os esquadrões da morte
dirigidos por agências de inteligência profissionalizadas –
propagaram-se por toda a região nas décadas subsequentes”. E ganharam o
mundo, afirmamos nós, como o comprovam as invasões do Iraque e da Líbia,
onde o número de mercenários superou em muito o do exército regular. O
fato destas “empresas” estarem entre as principais doadoras das
bilionárias campanhas eleitorais estadunidenses não é um mero detalhe.
Assim como o fato do secretário de Estado norte-americano Foster Dulles,
advogado/acionista da United Fruit, ter comandado a campanha - ao lado
de seu irmão Allen Dulles, chefe da CIA – pela derrubada do presidente
guatemalteco Jacobo Árbenz, consumada em 28 de junho de 1954. O motor do
golpe que levou ao poder o coronel Castillo Armas foi a nacionalização
de terras da “Frutera” e sua distribuição a camponeses pobres e a
indígenas.
Propaganda de guerra
No momento em que o
Império retoma a propaganda de guerra contra o povo sírio e seu governo,
a leitura contribui para refletirmos sobre os padrões de manipulação.
Uma “amnésia oficial” patrocinada pelos grandes conglomerados privados
de comunicação para dissipar a responsabilidade estadunidense na
deposição de governos nacionalistas como o de Árbenz. Ali, lembra
Grandin, “a CIA se serviu de práticas tomadas de empréstimo à psicologia
social, a Hollywood e à indústria publicitária para erodir a lealdade” e
gerar aversões, numa “campanha de desinformação concertada” em favor da
United Fruit, grande latifundiária e também proprietária das rodovias,
ferrovias e portos do país.
Com riqueza de dados e citações, a
obra desnuda os meandros da participação de Israel como coringa ianque
ao longo da agressão, desde o começo dos anos 70, até o período “mais
cruel da repressão”, entre 1982 e 1983, com a chegada ao poder do
general Efrain Ríos Montt. É neste momento, recorda o autor, “quando os
massacres se tornaram simultaneamente mais precisos e mais horrendos”.
Em recente visita à Guatemala, pudemos ouvir inúmeros relatos de
sindicalistas sobre tais sevícias. Como não comparar com a prática
nazi-israelense dos ventres abertos à ponta de baioneta, quando
lembramos os 30 anos do massacre do campo de refugiados palestinos de
Sabra e Chatila? Como esquecer dos soldados sionistas, em pleno século
21, praticando tiro ao alvo nos olhos das crianças palestinas, vazados
pelas balas de aço revestidas com borracha?
O genocida Ríos Montt
Em
maio de 2013, no julgamento em que Ríos Montt foi condenado por
“genocídio” pelas atrocidades cometidas, a juíza Jazmín Barrios
possibilitou que 149 mulheres da etnia ixil rememorassem o horror dos
“estupros coletivos” praticados contra suas aldeias há três décadas. “O
primeiro que perguntaram foi se dávamos comida aos guerrilheiros.
Respondi que sequer os conhecia. Na casa estava minha filha, de uns 17
anos, e dois dos seus irmãos pequenos. Os soldados arrancaram sua roupa,
separaram suas pernas com força e começaram a estuprá-la em frente às
crianças, que choravam de medo”.
A contundência da narrativa de
senhoras de 50 a 60 anos amplificou o circo de horrores que transborda
dos informes da Recuperação da Memória Histórica (Remhi) da Conferência
Episcopal Guatemalteca (CEG), e da Comissão de Esclarecimento Histórico,
patrocinada pela ONU. “Os estupros foram utilizados como instrumento de
tortura e escravidão sexual, com a violação reiterada da vítima”. “Se
tens marido, então te estupram entre cinco e dez soldados. Se és
solteira são 15 ou 20”. “Meu tio ia por um caminho com sua filha e uma
neta, quando uma patrulha militar conseguiu agarrar as meninas. A
criança de sete anos mataram, porque foram tantos os soldados que
passaram sobre ela...”. “Alguns soldados estavam doentes de sífilis ou
de gonorreia. A ordem foi que estes passassem por último, quando os sãos
já tivessem estuprado”.
Soam ridículas as alegações de que
tantos e tão flagrantes abusos tenham sido ações individuais e é risível
o empenho das agências internacionais de notícia – as mesmas que
blindaram os crimes perpetrados - para que seja esquecido o entranhado
envolvimento dos EUA e do atual presidente guatemalteco, Otto Pérez
Molina, no passado que não passou.
“Foi um serviço completo, com
planejamento até o último detalhe”, relata Hector Gramajo, líder
militar guatemalteco, lembrando que as zonas de resistência popular à
entrega do país ao estrangeiro eram apontadas como “vermelhas”. Nelas, a
luta deveria ser “sem quartel: todos deveriam ser executados e as
aldeias arrasadas”. (Schirmer, J. The Guatemalan military Project: a
violence called democracy. Philadelphia: University of Pensylvania,
Press, 1998).
As mentiras de Reagan
Foi durante a
administração do presidente estadunidense Ronald Reagan, lembra Greg
Grandin, que “o governo da Guatemala cometeu suas piores atrocidades”.
“Com a ascensão de Ríos Montt ao poder e o início da campanha de terra
arrasada, o governo Reagan passou a fazer um vigoroso lobby pela
retomada da ajuda militar”, destaca o autor, “conquanto um documento
liberado da CIA deixe claro que, já em fevereiro de 1982, os analistas
norte-americanos estivessem cientes das crescentes violações dos
direitos humanos”. Em dezembro de 1982, no “auge da sanguinolência”, o
presidente cowboy encontrou-se em Honduras com Ríos Montt, “o general do
Exército que, na qualidade de chefe do Estado, presidia a pior fase do
genocídio” e declarou que este era “injustiçado” pelos críticos e estava
“totalmente comprometido com a democracia” (The New York Times,
5.12.1982).
Em janeiro de 1983, de olho na venda de armamentos
ao país e no apoio da ditadura guatemalteca aos “contras” - mercenários
que combatiam a revolução sandinista na Nicarágua -, o porta-voz do
Departamento de Estado, John Hughes, comemora que Ríos Montt havia
conseguido um “declínio extraordinário” nos abusos cometidos.
Apesar
do forte bloqueio, as informações sobre os crimes começaram a fugir do
controle. Mesmo dentro dos EUA, a opinião pública passou a pressionar
contra o apoio ao regime fascista. Então, a participação israelense como
“testa-de-ferro” na Guatemala caiu como uma luva para “contornar a
proibição” votada pelo Congresso.
Obviamente, várias empresas
estadunidenses também se utilizaram de artifícios para desrespeitar a
decisão que defendia a vida, mas contrariava os seus negócios. “Leon
Kopyt, o presidente da Mass Transit Systems Corporation da Filadélfia,
contou a um jornalista que fazia anos que sua empresa fornecia ao
governo guatemalteco miras laser de fuzil, embora a solicitação de venda
desses produtos tivesse sido indeferida pelo Office of Munitions. A
Mass Transit driblou a proibição do Congresso simplesmente comprando as
miras laser de uma empresa estrangeira e revendendo-as ao exército
guatemalteco. Por sua própria natureza, é difícil determinar a extensão
dessas linhas de suprimento militar ilícito”, relata o autor.
Parceria sanguinária
De
uma ou de outra forma, “a operação militar israelense-guatemalteca se
iniciou plenamente em 1974, quando os dois países firmaram um acordo
sobre armas”. (Rubenberg, C. A. Israel and Guatemala: arms, advice anda counterinsurgency, Middle East Report, May-June, 1986)
Assim,
“em questão de meses”, chegaram ao país aviões, carros blindados, fuzis
de artilharia, submetralhadoras Uzi e fuzis de assalto Galil, assim
como técnicos e instrutores militares israelenses. Quando os EUA
cortaram parte da ajuda em 1977, Israel passou a ser o principal
fornecedor de armamento e tecnologia militar da Guatemala (Lusane, C. Israeli Arms in Central America, Covert Action, winter, 1984).
“A
partir de 1977, Israel mandou para a Guatemala onze aviões de
transporte Arava, dez tanques, 120 mil toneladas de munição, três barcos
patrulheiros Tair, um novo sistema tático de rádio e um grande
carregamento de morteiros de 81 milímetros, bazucas, granadas e
submetralhadoras Uzi. E, em 1982, as tropas guatemaltecas receberam, em
Puerto Barrios, dez tanques no valor de 34 milhões de dólares. A CIA e o
Pentágono providenciaram para que a carga chegasse da Bélgica, passando
pela República Dominicana” (Nairn, A, The Guatemala connection, The Progressive, maio 1986).
Também
nessa década, aponta Greg Grandin, o governo israelense ajudou a
instalar a Indústria Militar Guatemalteca, em Alta Verapaz, para
fabricar munições para os fuzis Galil – que já monopolizavam o país - e
as submetralhadoras Uzi. Em 1979, técnicos da Tadiran Israel Eletronics
instalaram um centro de computação na capital do país, que se integrou
ao Centro Regional de Telecomunicações e começou a funcionar em 1980. Em
1981, foi aberta a Escola de Transmissões e Eletrônica do Exército,
“construída e financiada por Israel e dotada de pessoal israelense, para
treinar militares em tecnologia de contrainsurgência”.
Nesta
toada, em 1992, havia pelo menos trezentos peritos em inteligência
israelense no país centro-americano, entre “especialistas em segurança e
comunicações e pessoal de treinamento militar”. (The New York Times, 17.4.1982).
O
resultado da parceria EUA-Israel na Guatemala não poderia ser outro que
não o “terror em escala industrial”. “No curso de duas décadas, até o
término da guerra em 1996, o Estado havia matado duzentas mil pessoas,
feito desaparecer com 40 mil e torturado não se sabe quantos milhares
mais”, aponta Greg Grandin.
Na prática, mais do que em
laboratório, a Guatemala foi convertida – como enfatiza o autor - em
“campo de extermínio da Guerra Fria”.
O repórter Luiz Carlos Azenha (R7
e titular do blog Viomundo) entrevistou vítimas do regime militar para contar
uma história que ainda não foi totalmente revelada. Veja no especial As Crianças e A Tortura.
Quando os homens já estavam dentro de sua casa, Ieda pensou em resistir e
pegar a metralhadora que estava em cima da mesa. Não houve tempo. Ela,
sua irmã Iara e a mãe delas, Fanny, foram arrancadas de casa e levadas
para a Oban (Operação Bandeirantes), em São Paulo.
Passava das 21 horas de 16 de abril de 1971 quando elas chegaram ao
centro de tortura da Rua Tutóia, no bairro do Paraíso. Lá estavam presos
e sendo torturados desde a manhã daquele dia, seu irmão, Ivan Akselrud
Seixas, e seu pai Joaquim Alencar de Seixas, ambos militantes do
Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT).
Mãe e filhas foram separadas. Ieda foi levada para um
banheiro, no segundo andar do prédio. Lá, havia uma cama e no lugar do
colchão, uma tela e um cobertor.
O entra e sai de homens no cômodo era grande. As luzes apagaram-se, e
Iara ouviu a ordem: “tragam o Ivan”. Na sequência, um som de rajada de
metralhadora e um grito de Fanny. Era a primeira de várias simulações do
fuzilamento de Ivan que a família viveria.
Ieda estava sentada na cama quando o movimento de homens no banheiro
continuou. Um entrava depois do outro, uns dez no total. Um deles
sentou-se ao seu lado, pressionando-lhe o corpo. Do outro lado, sentou
outro, que usava um chapéu. “Era um homem asqueroso”, recorda-se Ieda.
Ele tirou os sapatos e enfiou a mão por entre as pernas de Ieda,
alcançando sua vagina. “Me dê choque, me bata, mas não façam isso
comigo”, suplicou a moça, desesperada, em vão. O homem era o delegado da
polícia civil Davi dos Santos Araújo, conhecido no DOI-Codi como
Capitão Lisboa.
Simulação
De madrugada, Ieda foi colocada numa viatura veraneio C-14, cheia de
homens, e levada ao Parque do Estado. Ivan foi levado ao mesmo destino,
porém em outro carro. Lá, houve novamente a simulação de fuzilamento do
então adolescente de 16 anos. E, no carro, Capitão Lisboa, sentado ao
lado de Ieda, novamente a violentou.
No caminho de volta ao DOI-Codi, os agentes desceram numa padaria para
tomar café e de dentro do carro, Ivan e Ieda conseguiram ver a manchete
do jornal Folha da Tarde numa banca de revista, que dizia que o pai
deles, Joaquim Alencar de Seixas morrera. Porém, quando os irmãos
chegaram ao DOI,Joaquim ainda estava vivo.
Mais tarde, Ieda foi obrigada a tomar um copo de leite, muito doce. “Só
acordei no dia seguinte. Creio que fui dopada enquanto tiravam de lá o
corpo do meu pai, que havia sido morto”.
Seixas fora assassinado por volta das 19 horas do dia 17. Sua esposa,
Fanny, viu uma C14 ser estacionada no pátio e dentro colocarem o corpo
do marido. Ouviu, também, um policial perguntar a outro: “De quem é esse
presunto?”. Como resposta, ouviu: “Esse era o Roque” [codinome de
Seixas].
O depoimento emocionado de Ieda Seixas foi dado na última quinta-feira,
14/03, em audiência pública da Comissão da Verdade do Estado de São
Paulo “Rubens Paiva”, que também contou com o relato da ex-presa
política Elza Lobo.
Desaparecimento
Além do assassinato de seu pai, das torturas que ela e sua família foram
submetidas, Ieda ainda denunciou o caso de um jovem que viu desaparecer
no DOI-Codi. “Eu vi esse menino sentado no pátio. Era magro, loiro,
aparentava ser muito novo. Ele foi levado para o andar de cima, onde foi
torturado. Ouvimos seus gritos, e depois, ele silenciou, foi morto.
Não sei quem é esse garoto. Certamente ele ainda está sendo procurado
por alguma família”, relatou.
Ieda ficou um ano e meia presa: “Mas é como se tivesse ficado quase
seis, porque foi o tempo que o Ivan ficou preso”. Passados 41 anos de
sua prisão, a mulher de hoje 65 anos afirma que os gritos dos torturados
da Oban nunca saíram da sua cabeça.
Durante a audiência, o presidente da Comissão da Verdade de SP, o
deputado Adriano Diogo, comemorou a transformação do prédio onde
funcionou, por 72 anos, o Tribunal da Justiça Militar, em Memorial dos
Advogados de Presos Políticos. No imóvel também funcionará a sede de
comissões da verdade.
Cadeira do dragão e choques
No dia 10 de novembro de 1969, voltando do trabalho, Elza Lobo chegou em
casa e encontrou a porta de entrada encostada. Sentado na escada,
estava o capitão Maurício [Lopes Lima]. Levada à Oban, a então militante
da Ação Popular Marxista Leninista foi submetida a inúmeras torturas.
Puseram-lhe um capuz, e depois de atravessar uma área externa, foi
levada para um corredor, com paredes molhadas, de onde escorria água.
Depois, foi transferida para uma sala de tortura, onde foi colocada na
cadeira do dragão, [cadeira revestida de zinco ligada a terminais
elétricos, onde presos sentavam nus]e submetida a choques elétricos nas
mãos, orelhas, seios, vagina.“As torturas foram intermináveis”,
recorda-se Elza, que à época era funcionária da Secretaria da Fazenda de
São Paulo.
“A gente ficava jogado no chão, com a porta trancada. Se queria ir ao
banheiro, tinha que pedir. E eles decidiam se abriam ou não”, explicou,
durante a audiência da Comissão da Verdade. Elza lembrou de outra
situação “muito violenta”, quando entre os interrogadores havia “pseudo
religiosos, fingindo-se de bonzinhos para nos tentar convencer a falar.
Até livros religiosos eles traziam para completar a farsa”, explicou.
Depois de 15 dias na Oban, Elza foi levada para o Dops, e no total,
ficou 2 anos presa. A audiência de sobreviventes foi a primeira de uma
série, que irá ouvir ex-presos vítimas de tortura.
* Tatiana Merlino é jornalista da assessoria da Comissão da Verdade
do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”- presidente Adriano Diogo.
Militares colocam em dúvida metodologia do órgão e levantam teoria conspiratória para acabar com a Lei da Anistia
Wilson Lima
e Luciana Lima- iG Brasília |
- Atualizada às
Após um ano de investigação, são cada vez maiores as
queixas dos militares contra os trabalhos da Comissão Nacional da
Verdade. Se antes a dúvida estava relacionada apenas ao foco das
investigações, hoje os militares alegam que todo o trabalho tem o
objetivo de derrubar a Lei da Anistia
(Lei 6.683/1979).
Os militares acreditam que a Comissão é um órgão “para
acabar com pilares sagrados da extrema direita: a Igreja, a família
cristã e as Forças Armadas”,
como define o assessor especial da
presidência do Clube Militar do Exército, general Clóvis Purper
Bandeira. “Eles (integrantes da Comissão da Verdade), filhos da
burguesia, querem acabar com as instituições como a família, a Igreja e
as Forças Armada”, comentou.
Wilson Dias/ABr
Ustra, que comandou o DOI-COdi, depõe na Comissão Nacional da Verdade
Mesmo com a definição expressa nos objetivos do órgão, de
trazer a verdade sobre os crimes cometidos pelo Estado em nome da
ditadura militar, as altas patentes das Forças Armadas ainda insistem na
ideia de que se deve buscar uma paridade na composição da comissão e
nas investigações. O general de brigada do Exército Luiz Eduardo da
Rocha Paiva afirma que os casos de militares que morreram em conflito
com os movimentos armados também precisam ser investigados.
“Já que ela (a Comissão) está aí, que funcione, mas que
cumpra o que está na lei. A lei é bem clara, não é para investigar
apenas os crimes cometidos por agente públicos. A lei diz que deve ser
feita a reconstrução dos casos de graves violações dos direitos humanos
para que seja prestada assistência às vítimas. E aquelas 120 vítimas do
outro lado? Essas são, por acaso, cidadãos de segunda categoria?”,
questionou o general que acusou a Comissão de se “autolimitar”.
Em março, o Clube Naval do Rio de Janeiro, o Clube
Militar do Exército e o Clube da Aeronáutica divulgaram uma nota oficial
denominada “Mensagem à nação brasileira”. O documento criticava os
trabalhos da Comissão da Verdade. As entidades afirmaram que havia no
Brasil um Estado de exceção e que, por esse motivo, era necessário o
sufocamento de uma ameaça comunista.
“O povo brasileiro, no início da década de 1960, em
movimento crescente, apelou e levou as Forças Armadas Brasileiras à
intervenção, em março de 1964, num governo que, minado por teorias
marxistas-leninistas, instalava e incentivava a desordem administrativa,
a quebra da hierarquia e disciplina no meio militar e a cizânia entre
os Poderes da República.”
Entre os representantes das Forças Armadas há um
pensamento de que a CNV, instituída durante o governo do PT, foi criada
como instrumento de vingança contra os militares. O ápice desse plano
seria a mudança na interpretação da Lei da Anistia
.
“Eu acho que, de posse do resultado dos trabalhos da
Comissão da Verdade, parlamentares, principalmente do PT, tentarão
modificar os efeitos da Lei da Anistia. Logo ela que foi a pedra angular
da reconciliação nacional”, afirma o presidente do Clube Naval do Rio
de Janeiro, o vice-almirante Ricardo Antônio da Veiga Cabral.
Agência Brasil
O ex-sargento Marival Chaves, que trabalhou no DOI-Codi/SP, presta depoimento na Comissão
A primeira confirmação da “atitude parcial” da Comissão
da Verdade teria sido a expedição de uma resolução, em agosto do ano
passado, delimitando o foco de atuação do órgão. De acordo com esse
documento, a Comissão da Verdade passou a investigar apenas os crimes
cometidos por agentes do Estado. “Essa é uma meia verdade”, disse. “A
Comissão da Verdade quer causar um maior prejuízo à Forças Armadas
enquanto eles pousam como defensores da democracia”, critica Bandeira.
Após o lançamento da Comissão, o Clube Naval chegou a
instituir, por meio de portaria interna, uma comissão especial para
acompanhar os trabalhos do órgão. Eles temiam que membros da Marinha
fossem convocados e disponibilizaram assessores jurídicos para evitar a
condução coercitiva. Até agora, nenhum membro da marinha foi convocado
pelo colegiado. Ao todo, 17 militares já prestaram depoimentos à
Comissão da Verdade.
A lista de cassações aumentou no mês de janeiro em consequência da
edição do Ato Institucional número 5 (AI-5), em dezembro de 1968.
A
punição atingiu parlamentares e até ministros do Supremo Tribunal
Federal (STF).
Entre os que perderam o mandato estavam:
2 senadores -
Aarão Steinbruck e João Abraão -,
35 deputados federais,
3 ministros
do STF - Hermes Lima, Vítor Nunes Leal e Evandro Lins e Silva,
além de
aposentar compulsoriamente os ministros Antônio Gonçalves de Oliveira e
Carlos Lafaiete de Andrade.
O AI-5 não poupou nem o ministro do Superior
Tribunal Militar (STM) Peri Constant Bevilacqua, que, segundo o
porta-voz do Presidente Costa e Silva, Carlos Chagas, era acusado de
"dar habeas-corpus demais".
O Congresso foi fechado, e só foi reaberto
em outubro, para eleger o general Emílio Garastazu Médici à Presidência
da República.
O AI-5
foi o instrumento criado para dar amparo legal aos atos arbitrários
cometidos pela ditadura militar. O decreto autorizou o presidente da
República a fechar o Congresso, intervir nos Estados e municípios,
cassar mandatos parlamentares, suspender por 10 anos os direitos
políticos de qualquer cidadão, confiscar bens considerados ilícitos,
além de suspender a concessão de habeas-corpus.
Os encarregados de
inquéritos políticos estavam autorizados a prender qualquer pessoa por
60 dias, 10 dos quais estas deveriam permanecer incomunicáveis.
Emissoras de televisão e de rádio, e redações de jornais seriam ocupadas
por censores. O AI-5 foi seguido por mais 12 atos institucionais, 59
atos complementares e oito emendas constitucionais, e foi revogado em 17
de outubro de 1978.
Eram 9 horas da manhã de uma sexta-feira, quando dois indivíduos, numa
caminhonete bege, pararam em frente à Metal Arte Industrial Reunidas, na
zona leste da capital paulista e, identificando-se como agentes do
DEOPS dirigiram-se ao encarregado do Departamento de Pessoal da empresa,
em busca de Manuel Fiel Filho, empregado há 19 anos - encarregado do
setor de prensas hidráulicas, informando urgência em contactá-lo. Cinco
minutos depois, de uniforme em brim azul, estava diante deles o
funcionário, que havia chegado às 7h ao trabalho.
Os agentes pediram que Manuel os acompanhasse para prestar um
esclarecimento. Segundo o chefe do Departamento de Pessoal, Manuel
estava tranquilo e antes de acompanhar os agentes fez uma única
pergunta: "Será preciso eu trocar de roupa ou posso ir assim mesmo"? E ouviu a seguinte resposta de um deles: "Pode ir assim mesmo, que logo você estará de volta".
De lá, os três seguiram para a casa de Manuel, também na zona norte de
São Paulo, onde estavam sua esposa e filhas. Sem nada explicá-las,
apenas recomedaram: "Ninguém deve falar nada com ele". E
começaram a revistar o domicílio. Ao final das buscas, permitiram que
Manuel ficasse a sós com a família por alguns instantes, mas ao ser
questionado pela esposa, apenas a abraçou e disse: "Não se preocupe, nega, que eu não vou demorar". Em seguida, Manuel e os policiais entraram no carro e deixaram o local.
Manuel Fiel Filho não foi mais visto.
Apesar da preocupação, todos resolveram aguardar por notícias. Até que,
as 22h de sábado, 17 de janeiro de 1976, um táxi apareceu à porta da
casa de Manuel, e sem descer, o passageiro informou à sua esposa
secamente: "Seu marido se suicidou". E estendendo os braços para
fora do carro, entregou-lhe um saco com os pertences que Manuel usava no
dia anterior: Blusão, calça, sapatos, cinto e uma nota de Cr$ 10.
Também havia um envelope timbrado do II Exército, com os documentos do
operário.
A família seguiu para o IML, à procura do corpo de Manuel, mas os
funcionários negaram que ele tivesse dado entrada ali. Contudo, diante
da insitência de seus parentes, os funcionários acabaram por admitir que
o corpo do operário havia chegado poucos minutos antes, vindo do
Hospital das Clínicas, onde havia dado entrada após passar mal no
trabalho e acabara de morrer. Porém, havia ordens no IML para que
ninguém visse o corpo de Manuel e que a família não fosse comunicada do
enterro.
Por fim, diante da pressão dos irmãos de Manuel, o corpo de Manuel
acabou sendo velado, sob escolta policial, na capela da Igreja Nossa
Senhora de Lourdes, no bairro Belém, com a condição de que a cerimônia
fosse rápida e discreta. Alguns conhecidos puderam ver um corte
profundo, longitudinal da altura do queixo ao pescoço, para o qual
receberam a explicação de tratar-se de uma autopsia.
Em poucos minutos, encerrou-se o sepultamento. E para todos que se
retiravam, um policial à paisana recomendava que evitassem comentar o
acontecimento, que não deveria ultrapassar o âmbito familiar. A viúva e
as duas filhas de Manuel não voltaram para casa e deixaram São Paulo no
mesmo dia.
A vida e morte de Manuel é a base do documentário Perdão Mister Fiel - O Operario que Derrubou a Ditadura no Brasil que mostra a atuação dos Estados Unidos na caça aos comunistas e nas ditaduras militares na América do Sul.
Abril de 1942
Última carta da lutadora Olga Benário, antes de ser assassinada pelos
Nazistas no campo de concentração de Ravensbruck na câmara de gás:
Queridos:
Amanhã vou precisar de toda a minha força e de toda a minha vontade.
Por isso, não posso pensar nas coisas que me torturam o coração, que são
mais caras que a minha própria vida. E
por isso me despeço de vocês agora. É totalmente impossível para mim
imaginar, filha querida, que não voltarei a ver-te, que nunca mais
voltarei a estreitar-te em meus braços ansiosos. Quisera poder
pentear-te, fazer-te as tranças – ah, não, elas foram cortadas. Mas te
fica melhor o cabelo solto, um pouco desalinhado. Antes de tudo, vou
fazer-te forte.
Deves andar de sandálias ou descalça, correr ao ar livre
comigo. Sua avó, em princípio, não estará muito de acordo com isso, mas
logo nos entenderemos muito bem. Deves respeitá-la e querê-la por toda a
tua vida, como o teu pai e eu fazemos. Todas as manhãs faremos
ginástica... Vês? Já volto a sonhar, como tantas noites, e esqueço que
esta é a minha despedida. E agora, quando penso nisto de novo, a idéia
de que nunca mais poderei estreitar teu corpinho cálido é para mim como a
morte.
Carlos, querido, amado meu: terei que renunciar para sempre a
tudo de bom que me destes? Corformar-me-ia, mesmo que não pudesse
ter-te muito próximo, que teus olhos mais uma vez me olhassem. E queria
ver teu sorriso. Quero-os a ambos, tanto, tanto. E estou tão agradecida à
vida, por ela haver-me dado a ambos. Mas o que eu gostaria era de poder
viver um dia feliz, os três juntos, como milhares de vezes imaginei.
Será possível que nunca verei o quanto orgulhoso e feliz te sentes por
nossa filha?
Querida Anita, meu querido marido, meu Garoto: choro
debaixo das mantas para que ninguém me ouça, pois parece que hoje as
forças não conseguem alcançar-me para suportar algo tão terrível. É
precisamente por isso que esforço-me para despedir-me de vocês agora,
para não ter que fazê-lo nos últimas e difíceis horas. Depois desta
noite, quero viver para este futuro tão breve que me resta. De ti
aprendi, querido, o quanto significa a força de vontade, especialmente
se emana de fontes como as nossas. Lutei pelo justo, pelo bom e pelo
melhor do mundo. Prometo-te agora, ao despedir-me, que até o último
instante não terão porque se envergonhar de mim. Quero que me entendam
bem: preparar-me para a morte não significa que me renda, mas sim saber
fazer-lhe frente quando ela chegue. Mas, no entanto, podem ainda
acontecer tantas coisas... Até o último momento manter-me-ei firme e com
vontade de viver. Agora vou dormir para ser mais forte amanhã. Beijo-os
pela última vez.
Em depoimento neste sábado, 5, à Comissão Nacional da Verdade (CNV), no Rio de Janeiro, o coronel-aviador da reserva Roberto Baere, 80 anos, revelou detalhes da chamada Operação Mosquito, conspiração montada em 1961 por oficiais da Aeronáutica para matar o então vice-presidente, João Goulart, que estava prestes a assumir a Presidência no lugar de Jânio Quadros, que havia renunciado. Segundo seu depoimento, ele recusou participar da ação e ela foi abandonada.
A reportagem é de Fábio Grellet e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 05-05-2013.
A denúncia de Baere ocorre três dias depois de a própria comissão ter decidido pela exumação do corpo de Goulart - que está sepultado em São Borja (RS) e sobre cuja morte, em 1976, pairam até hoje suspeitas de envenenamento.
Apoiado em 1961 pela esquerda e pelos sindicatos, Goulart era visto por setores da direita militar como herdeiro político de outro velho inimigo dela, o presidente Getúlio Vargas, que havia se suicidado em 1954. Passados dez anos, esses grupos eram radicalmente contra sua posse no lugar de Jânio.
Quando este renunciou, a 21 de agosto de 1961, Goulart
estava na China. Ciente da oposição da direita, ele demorou para voltar
e foi desembarcar dia 31 de agosto em Porto Alegre, onde as tropas eram
leais ao governador Leonel Brizola (PTB), seu cunhado.
Ele só chegou a Brasília em 5 de setembro, já com o parlamentarismo
imposto pelos militares. O plano dos golpistas era abater o avião em que
Goulart faria essa viagem.
Baere, então tenente do 1.º Grupamento de Aviação de
Caça da Base Aérea de Santa Cruz, no Rio, contou neste sábado ter
recebido ordens do comandante da base, o tenente-coronel Paulo Costa (que já morreu), para preparar os caças que seriam usados no ataque. Segundo Baere, ele e três colegas se recusaram a cumprir a missão.
"Pedimos que ele não nos escalasse porque entramos nas Forças Armadas
para defender a Constituição e não agredi-la", afirmou ele ontem diante
da comissão.
O plano acabou sendo abandonado, mas Baere foi
punido três anos depois, já no governo militar de 1964. "Fui
sumariamente expulso, após 50 dias incomunicável na prisão, policiado na
porta por um oficial de metralhadora, como um marginal de alta
periculosidade".
A CNV ouviu também, neste sábado, outros militares punidos por se oporem ao golpe. Um deles, o fuzileiro naval Paulo Novais Coutinho, tinha sido mandado em 25 de março de 1964, sete dias antes do golpe, ao Sindicato dos Metalúrgicos do Rio
para dispersar uma reunião. A frente de 39 homens, recusou-se
reprimi-la. Ficou preso nove meses e foi expulso por indisciplina. Só
conseguiu voltar à Marinha em 1989.
O Ministério Público Federal (MPF) em São Paulo denunciou, pelo crime
de ocultação de cadáver, o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante
Ustra, comandante do Destacamento de Operações de Informações – Centro
de Operações de Defesa Interna de São Paulo (DOI-Codi) no período de
1970 a 1974. Também foi denunciado pelo mesmo crime o delegado
aposentado Alcides Singillo, que atuou no Departamento de Ordem Política
e Social de São Paulo (Deops/SP) na ditadura militar.
Na ação, ajuizada na sexta-feira, dia 26/4, Ustra e Singillo são
acusados de ocultar o cadáver do estudante de medicina Hirohaki Torigoe,
então com 27 anos, morto no dia 5 de janeiro de 1972. Torigoe foi
membro da Ação Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento de Libertação
Popular, organizações de resistência à ditadura.
De acordo com o MPF, a versão oficial do crime – divulgada à imprensa
duas semanas após o desaparecimento do estudante – sustenta que Torigoe
foi morto na Rua Albuquerque Lins, no bairro de Higienópolis, na zona
oeste de São Paulo, em um tiroteio com a polícia. Segundo as fontes
oficiais da época, a demora na divulgação da morte ocorreu porque a
vítima usava documentos falsos, com o nome de Massahiro Nakamura.
No entanto, o MPF contesta a versão oficial com base no depoimento de
duas testemunhas: André Tsutomu Ota e Francisco Carlos de Andrade,
presos na mesma data. De acordo com os depoimentos, Torigoe foi ferido e
levado ainda com vida ao DOI-Codi do 2º Exército, no bairro do
Ibirapuera, onde foi interrogado e submetido à tortura.
As testemunhas afirmaram que os agentes responsáveis pela prisão de
Torigoe tinham pleno conhecimento da verdadeira identidade do detido.
Apesar disso, de acordo com o MPF, todos os documentos a respeito da
morte da vítima, inclusive o laudo de necropsia, a certidão de óbito e o
registro no cemitério, foram elaborados em nome de Massahiro Nakamura.
Para o MPF, além de utilizarem o nome falso nos documentos de óbito e
de sepultarem clandestinamente o estudante no Cemitério de Perus, em
São Paulo, os subordinados de Ustra negaram aos pais de Torigoe
informações a respeito do filho desaparecido.
Na ação, o órgão acusa Ustra de enterrar clandestinamente Hirohaki
Torigoe, falsificar os documentos sobre a morte com o intuito de
dificultar a localização do corpo, ordenar a seus subordinados que
deixassem de prestar informações aos pais da vítima e de retardar a
divulgação da morte em duas semanas, com a intenção de ocultar o cadáver
e garantir a impunidade pelo homicídio.
“A conduta dolosa de ocultação do cadáver resta totalmente
caracterizada pelo fato de que os pais da vítima estiveram nas
dependências do DOI-Codi antes da divulgação da notícia do óbito, em
busca do paradeiro do filho. Lá, porém, funcionários do destacamento
sonegaram-lhes a informação de que Hirohaki Torigoe fora morto naquele
mesmo local e que seu corpo fora clandestinamente sepultado com um nome
falso”, ressalta o texto da ação.
Desde 2006, um inquérito civil público busca localizar os restos
mortais de Hirohaki Torigoe. “Até hoje permanecem os restos mortais de
Hirohaki Torigoe ocultos para todos os fins, inclusive os penais”,
afirma o MPF.
O delegado de Polícia aposentado Alcides Singillo é acusado de deixar
de comunicar a correta identificação e localização do corpo à família
da vítima, o cemitério onde ele supostamente foi enterrado e o cartório
de registro civil onde a morte foi registrada. De acordo com o MPF,
Singillo era, na época, delegado do Deops de São Paulo e tinha ciência
da identidade do estudante, pois colheu o depoimento do verdadeiro
Massahiro Nakamura, que foi a delegacia após a notícia de que Torigoe
usava seu nome.
Segundo o advogado de Ustra, Paulo Esteves, o ex-coronel nunca
participou de nenhum tipo de violação de direitos. “A violência não foi
apanágio da vida dele”, disse. A reportagem não conseguiu localizar o
advogado do ex-delegado Singillo.
O coordenador da Comissão Nacional da Verdade (CNV), Paulo Sérgio
Pinheiro, afirmou ontem que o trabalho do colegiado deve servir para
futura investigação judicial e responsabilização criminal de agentes de
Estado que operaram na estrutura repressiva da ditadura militar. Ele
frisou que no relatório final da comissão deverá haver recomendações
para que o Brasil respeite uma decisão da Corte Interamericana de
Direitos Humanos que questiona a validade da Lei de Anistia.
"Existe uma sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos que
diz que as autoanistias não são aceitáveis", ele destacou ontem, em
encontro em São Paulo com membros das comissões estaduais de Memória
Verdade e Justiça. O que aconteceu no Brasil foi uma autoanistia,
afirmou. Na ocasião da sentença proferida pela corte, o então ministro
da Defesa, Nelson Jobim declarou que a decisão não teria efeitos
práticos, se baseando em posição do Supremo Tribunal Federal (STF), que
rejeitou ação pedindo a revisão da Lei da Anistia. Rosa Cardoso, também integrante da CNV, disse que espera uma revisão da decisão do Supremo.
Pressionada
pelos membros de comitês estaduais por mais agilidade e transparência, a
CNV anunciou também que deve divulgar um relatório parcial de seus
trabalhos e partes dos depoimentos colhidos por ela. A comissão está
sinalizando uma mudança de rumo. Está reorientando o trabalho porque
começa a perceber que é preciso que suas investigações repercutam agora
na sociedade. O trabalho dela é também pedagógico, não é simplesmente
fazer um relatório e dar a coisa por encerrada, avaliou o
vice-presidente do grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo, Marcelo Zelic,
presente ao evento.
A coordenadora do núcleo de lutas pela
terra da CNV, a psicanalista Maria Rita Kehl disse anteriormente ao
Estado de Minas que há casos em que é importante manter o sigilo das
investigações para que elas não sejam prejudicadas.
Demissão No
encontro, foi anunciada a saída do ministro do Superior Tribunal de
Justiça (STJ), Gilson Dipp, da CNV, por motivo de saúde. Afastado do STJ
já há sete meses, ele havia informado a comissão há onze dias, mas a
decisão só foi confirmada publicamente ontem.
Um grupo de trabalho do Ministério Público Federal
chamado Justiça de Transição já trabalha de acordo com a linha
defendida pelo presidente da CNV e instaurou 170 investigações
criminais, sustentando que os crimes de sequestro, homicídio, tortura e
ocultação de cadáver não prescrevem. Pelo menos quatro delas deram
origem a ações penais. (Com agências)
Ustra é denunciado
O Ministério Público Federal
apresentou ontem denúncia contra o coronel reformado Carlos Alberto
Brilhante Ustra e o delegado aposentado Alcides Singillo por ocultação
do cadáver do estudante de medicina Hirohaki Torigoe, de 27 anos, morto
em janeiro de 1972, em São Paulo. Tarigoe era militante da Aliança
Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento de Libertação Popular (Molipo)
e teria morrido em confronto com policiais, segundo consta a versão
oficial. No entanto, dois depoimentos, de André Tsutomu Ota e Francisco
Carlos de Andrade, contestam a informação. Ambos estavam presos no
DOI-Codi quando o estudante foi morto. (Estado de Minas)
Desaparecido
há 45 anos, o Relatório Figueiredo - um dos documentos mais importantes
produzidos pelo Estado brasileiro no último século - foi encontrado
recentemente no Museu do Índio, no Rio de Janeiro, com mais de 7 mil
páginas preservadas e contendo 29 dos 30 tomos originais. O texto
redigido pelo então procurador Jader de Figueiredo Correia traz
denúncias de caçadas humanas promovidas com metralhadoras e dinamites
atiradas de aviões, inoculações propositais de varíola em povoados
isolados e doações de açúcar misturado a esctricnina. Agora, o relatório
pode se tornar um trunfo para a Comissão da Verdade, que apura
violações de direitos humanos cometidas entre 1946 e 1988. As
informações foram publicadas no jornal Estado de Minas.
A investigação, feita em 1967, em plena ditadura, a
pedido do então ministro do Interior, Albuquerque Lima, tendo como base
comissões parlamentares de inquérito de 1962 e 1963 e denúncias
posteriores de deputados, foi o resultado de uma expedição que percorreu
mais de 16 mil quilômetros, entrevistou dezenas de agentes do SPI e
visitou mais de 130 postos indígenas. Jader de Figueiredo e sua equipe
constataram diversos crimes, propuseram a investigação de muitos mais
que lhes foram relatados pelos índios, se chocaram com a crueldade e
bestialidade de agentes públicos. Ao final, no entanto, o Brasil foi
privado da possibilidade de fazer justiça nos anos seguintes.
Albuquerque Lima chegou a recomendar a demissão de 33 pessoas do SPI e a
suspensão de 17, mas, posteriormente, muitas delas foram inocentadas
pela Justiça. Funcionários que haviam participado do trabalho foram
exonerados. Quem não foi demitido foi trocado de função, numa tentativa
de esconder o acontecido. Em 13 de dezembro do mesmo ano o governo
militar baixou o Ato Institucional nº 5, restringindo liberdades civis e
tornando o regime autoritário mais rígido.
O governo Arbenz
introduziu uma série de reformas que a inteligência americana considerou
como atribuídos aos comunistas e de influência soviética, como a apreensão e expropriação
de terras não utilizadas que corporações privadas retiradas há muito
tempo, e distribuição dessas terras para camponeses. Este foi o primeiro
golpe de estado promovido pela CIA na América latina.[1][2]
Isso fomentou o receio nos EUA de que a Guatemala se tornaria o que Allen Dulles chamou de "uma praia Soviética na América" (uma posição inimiga para a invasão). Esta situação criou um impacto na CIA e na administração Eisenhower durante a época do Macartismo. O Presidente Arbenz promulgou essencialmente uma reforma agrária que antagonizava a multinacional norte-americana United Fruit Company, com interesses oligarquicos e influências na Guatemala, através de "lobbyings" nos EUA.
A operação, que durou apenas a partir de finais de 1953-1954,
foi planejada para armar e treinar para um "exército de libertação"
assumir o país, com cerca de 400 rebeldes sob o comando de um oficial
exilado do exército guatemalteco o coronelCarlos Castillo Armas com uma coordenação ardil do complexo diplomático, económico e propaganda em grande parte experimental. A invasão foi precedida de um plano desde 1951,
chamado PBFORTUNE para financiar e fornecer armas e suprimentos para as
forças opostas ao presidente. Após a invasão a Operação PBHISTORY, a
fim de dedicar-se à recolha de documentos para incriminar o governo
Arbenz de fantoche comunista.
Ao longo das próximas quatro décadas após a derrubada de Arbenz, a
sucessão de governantes militares iria criar uma guerra de
contra-insurgência, que desestabilizou a sociedade guatemalteca. A
violência causou a morte e o desaparecimento de mais de 140.000
guatemaltecos, e alguns ativistas dos direitos humanos,
coloca o número de mortes tão elevado como 250.000. Em etapas
posteriores deste conflito a CIA tentou, com algum sucesso reduzir as
violações dos direitos humanos e parou um golpe em 1993 e ajudou a restaurar o regime democrático.